terça-feira, 14 de outubro de 2008

Mas que não seja só isso…

Foi bom. Gritei, pulei, participei de “trenzinhos” e “círculos” frenéticos e animados. Confesso que também fiquei frenético e animado. Estou me referindo à minha conduta durante a Marcha com Jesus, evento que houve em nossa cidade, no dia 27 de setembro. Logo de início, fiquei maravilhado com as milhares de pessoas que lotaram a Avenida Agamenon Magalhães, tendo como fundo musical canções religiosas com letras embasadas na Palavra do Senhor. Essa é a prova viva do nosso poder de mobilização, de quanto o nosso povo, apesar das distinções doutrinárias, se une em prol de um serviço mais amplo. Fiquei feliz ao ver, no final da festa, que milhares de pessoas se reuniram, mas não houve um acidente ou incidente, bem como não houve um cigarro aceso, tampouco houve uma lata de cerveja ou aguardente aberta, pois era o povo do Senhor Jesus que estava reunido. Foi lindo rever irmãos(ãs) das mais diversas denominações, todos estampando um sorriso no rosto, com os olhos brilhando de emoção. Mais lindo ainda foi poder liberar sentimentos que ficam reprimidos por causa das atividades cotidianas. Oportunidades de expressar essas emoções contidas minimizam o “desencantamento com o mundo” (utilizando uma expressão weberiana) que macula o coração da gente. O atraso no início da caminhada e o problema com um dos três trios elétricos não foram motivos para impedir a diversão.
Contudo, após a “catarse” da tarde/noite anterior, começo a me indagar acerca do evento. Até porque eu concordo com o apóstolo Paulo, no que diz respeito à conciliação entre razão e fé, implícita no texto bíblico de Atos 17:16-34. Ou seja, embora o entendimento espiritual transcenda o conhecimento racional, não o elimina; permitindo-nos, então, refletir sobre o tema. Até que ponto movimentos dessa natureza podem, realmente, transformar o cenário horrendo no qual as famílias se encontram atualmente? Qual o impacto social que tais programas podem trazer? Qual é, realmente, a diferença cristã apresentada à sociedade? Mesmo que, olhando direitinho, não há muita diferença entre as festas assim e as manifestações carnavalescas que acontecem durante o nosso São João, as quais critico ferozmente. Não foram poucos os gritinhos das adolescentes quando um certo cantor se apresentou ao público. E, suponho que os assovios e as expressões “lindo!”, “gato!” e “Aaahhhh!” não eram direcionados a Jesus… Difícil não me lembrar do São João… Enquanto a “festa mundana” despreza os valores regionais para enaltecer o “tecnobrega”, “bregapop”, “estilizado” ou quaisquer das outras nomenclaturas que caracterizam a “fuleiragem music” (conforme expressão acadêmica), nós seguimos o exemplo de Jerusalém, ao nos esquecermos de nossos “profetas/cantores”. É verdade que os cantores de “pop rock gospel” com prestígio nacional apresentam músicas de grande qualidade, das quais sou admirador confesso. Entretanto, sinto falta de ver cantores evangélicos de estilo regional em eventos de grande público. O que estou dizendo é que, pessoalmente, anelo vislumbrar os cantores da terra também cantando para aproximadamente 30 milhões de pessoas, seja nesse evento, seja em outros…
Não quero que o “oba-oba” do momento cegue os irmãos. Por falar nisso, será que, após a folia, pudemos enxergar a quantidade de mendigos pelo centro da cidade? Eles são o retrato da desigualdade social que enodoa nosso país; não vê-los é reflexo do pensamento ensimesmado dos seres individualistas contemporâneos. É a antítese dos “objetivos solidários” do evento. Creio que profetizar sobre Caruaru vai mais além do que simplesmente dizer que “Caruaru é de Jesus”, é necessário um envolvimento firme, coerente e responsável com o contexto atual, minimizando as injustiças e mazelas sociais. Não creio que os traumas familiares, oriundos da secularização da vida, serão extirpados por meio de movimentos semelhantes aos festejos laicos da cidade. A massificação constatada na passeata suprime a individualidade do cristão, contrapondo-se à noção de “caminho estreito” como conceitos, ideais e idiossincrasia pessoal. É meu desejo que sejamos conhecidos como servos de Cristo por causa de nosso relacionamento enquanto “comunidade”, não como “conglomerado”. Que os gritos “proféticos” de que “Caruaru é de Jesus” ecoem permanentemente em nossos ouvidos e, junto com eles, a certeza de que, para que isso aconteça, cada um de nós, individualmente, deve exalar o cheiro de Cristo.
Quero encerrar o texto por aqui. Portanto, farei de tudo para ser o mais claro possível. Não estou condenando o evento, nem quem vai (até porque eu fui), tampouco quem organizou. Estou querendo tão-somente destacar seu papel, o qual é (a meu ver), pura e simplesmente divertir os cristãos. Só não podemos deixar que isso nos faça esquecer do nosso papel enquanto discípulos de Jesus: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”(Tiago 1:27). Isso não se aprende na avenida, mas no templo; e não se pratica mecanicamente, mas apenas após a vivificação pelo Espírito. Quanto à marcha, estou esperando o próximo ano, para que eu grite, pule, participe de “trenzinhos” e “círculos” novamente, se Deus quiser. Mas que eu não perca minha racionalidade e não me julgue estar fazendo grande obra por estar pulando e gritando enquanto muitas vidas perecem sem Cristo…


Jénerson Alves

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

24 horas e uma vida inteira

Sério, por que será que o dia só tem 24 horas? Eis uma dúvida que invade constantemente o meu coração. É que o cotidiano vem produzindo um frenesi tremendo na vida das pessoas. Não há mais tempo para nada! Vejo somente pessoas trabalhando, trabalhando e trabalhando, sem tempo algum para realizarem qualquer outra tarefa. As pessoas não trabalham mais para viver, mas vivem para trabalhar.Estou falando isso por experiência própria. Quanto tempo faz que eu não consigo sequer parar algumas horas, em pleno fim de semana para me divertir um pouco com pessoas que amo? Talvez você, leitor, esteja na mesma situação que eu... Quanto tempo faz que você saiu com sua esposa? Quanto tempo faz que você sentou no chão com seu filho e se deixou levar na viagem ao mundo da imaginação infantil? Quanto tempo faz que você tirou alguns minutos para ligar para um amigo que não vê há anos e dizer que ele é importante para você? Quanto tempo faz, até mesmo que você se curvou diante do Criador de todas as coisas e agradeceu a Ele pelo milagre da vida? O corre-corre do cotidiano parece um rolo compressor que extermina a sensibilidade das pessoas. O tempo que passa deixou de ser sinônimo de vida que corre, e muitos assimilam o falso ditado de que “tempo é dinheiro”.Eu não aceito! Reivindico meu direito de viver! Quero ter o direito à liberdade de me deixar embasbacar com as cenas mais simples do filme da natureza. Quero sentir o prazer de viver intensamente cada segundo concedido a mim pelo beneplácito do Pai dos pais! E, quero convidá-lo a fazer o mesmo: aproveite as 24 horas do seu dia como se fossem as últimas – pois o que você faz (ou deixa de fazer) em um instante pode produzir conseqüências que perduram a vida inteira…Ah, sim... Sei que esse artigo poderia ser maior, mas eu vou parar de escrever por aqui. É que há uma jovenzinha me esperando para jantar… (e eu não vou perder tempo, não é?)
Jénerson Alves, 27 de agosto de 2007

domingo, 24 de agosto de 2008

Papa-figo: Um filé de filme

Tive o privilégio de assistir a uma das exibições do filme “Papa-figo”, no Teatro João Lyra Filho. O longa é a mais recente produção do professor Menelau Júnior. Incrível como ele conseguiu reunir alunos e professores e, por meio de uma produção independente, produzir algo tão fascinante. O filme “ressuscita” a lenda urbana do psicopata que se alimenta do fígado de crianças. Inicia mostrando o caso fictício do assassinato de uma menina na cidade de Sairé-PE, há 30 anos. O irmão da vítima (interpretado pelo professor Veridiano Santos) torna-se investigador, em uma busca incontrolável para se vingar do homicida. Entretanto, ele necessitará da ajuda de uma adolescente, vivenciada pela jovem Renata Danyella. A atriz é um “filé” (no bom sentido, claro). De momentos de intimismo e reflexão a momentos de luta corporal, passando por cenas de romance, a beldade mostrou talento e versatilidade. Com esses comentários, quero registrar a minha felicidade em testemunhar o nascimento de uma grande estrela.
A edição foi profícua, mesclando as imagens com a trilha sonora (dirigida por Elias Guinho). Desta forma, o ritmo da ficção tornou-se agradável, com conflitos envolventes e desfecho inesperado. Além disso, o filme está recheado de conceitos e mensagens saudáveis. O amor adolescente associado ao compromisso ganha espaço em uma sociedade na qual muitos ensinam os jovens a “ficar”. A importância da família na formação do caráter também coadjuva na trama, podendo levar à reflexão acerca dos novos moldes familiares e suas conseqüências. O hábito da leitura figura como algo prazeroso e imprescindível, contrapondo-se à cultura da aversão ao saber, instituída pela mídia massificada que tenta vendar os olhos juvenis. Enfim, mais do que divertir, o “Papa-figo” alfabetiza visualmente e alarga o senso crítico dos espectadores. Fiquei feliz ao perceber que o teatro estava lotado de adolescentes. Percebi que não é verdadeira a afirmação de que os nossos jovens apenas apreciam pornofonias, sensualidade e baixo conteúdo. Lembrei-me daquele velho exemplo de Ariano Suassuna: “dizem que cachorro só gosta de osso, contudo apenas dão osso para o cachorro comer! Se derem filé, vão perceber que cachorro também gosta de filé”. “Papa-figo” é, na verdade, um pedaço grandioso de filé cultural, assado nas chamas do fogareiro da Capital do Agreste. Parabéns, Professor Menelau! E vá temperando outro pedaço de filé para o próximo ano, que Caruaru aguarda e a juventude precisa…

sábado, 16 de agosto de 2008

Ela

Foi-não-foi, me pego pensando nela. Na verdade, penso nela todo instante – é que só percebo que é nela que estou pensando de vez em quando… Recordo-me da primeira vez que a vi… Ela refletia um brilho especial… Pode parecer piegas, mas é verdade! A partir daquele instante, ela “seqüestrou” meus olhos de tal forma que eu não conseguia olhar mais para nada, só para ela. Mais do que isso: quando voltei para casa, não consegui dormir, pois minha mente eternizou os poucos segundos que eu havia compartilhado com ela…
Aos poucos, ela foi “seqüestrando” mais do que simplesmente os meus olhos. Minto. Não seqüestrou. Eu lhe dei. Sim! Ela não me pediu, acho que até nem queria que eu tivesse lhe dado, mas… Eu lhe entreguei meus olhos, meus pensamentos, meu coração… O meu melhor momento de cada dia é dedicado a ela. Não precisa acontecer nada, só basta vê-la…
Que há de tão interessante nela? Não sei! É um mistério… Sabe… Às vezes, eu nem sei o que gostaria de ouvir, mas gosto do que ela me diz… Às vezes, eu não consigo sorrir durante o dia – nem mesmo por um milésimo de segundo. Entretanto, basta estar ao lado dela que meus lábios se abrem – e a vida se torna linda… Quando ela parte, volto a sentir as dores do meu coração – partido por causa das não-sei-quantas pancadas que sofreu (mas, mesmo assim, sobrevive…)
Eu sei que ela não sabe o que eu sinto, mas de vez em quando eu sinto que ela sente que eu sinto; embora ela não sinta o mesmo que eu sinto… Quer dizer, às vezes eu até sinto que ela sente, mas acho que essa sensação é muito mais desejo meu do que realidade… Tenho consciência de que aquele brilho especial que emana dela, ao qual me referi no início do texto, é outorgado a outro homem, um felizardo que nem sei se consegue mensurar o tamanho da benesse que possui…
Mas, mesmo assim, estou feliz. Estou feliz por poder, ao menos de vez em quando, dividir um pouquinho da minha vida com a vida dela. Dessa forma, sou iluminado por resquícios do fulgor que ela irradia. Minha vida torna-se um pouquinho mais saborosa ao lado dela, mesmo sabendo que não terei uma vida inteira ao seu lado, sei que ela estará dentro de mim a vida inteira – pois ela é responsável por muita coisa boa em minha vida. Somente o fato de conhecê-la me impele a ser uma pessoa melhor. Busco melhorar a mim mesmo cada vez que penso nela… E penso tanto que, se fosse escrever tudo o que penso, nem todos os pensamentos poderiam ser convertidos em palavras, nem todas as palavras expressivas que eu utilizasse seriam capazes de expressar o que eu gostaria…
Ela é um anjo.

Autor: Jénerson Alves

domingo, 3 de agosto de 2008

TU QUOQUE

“Você também”. É esse o significado do termo latino que intitula este artigo. Refere-se a uma estratégia de debate embasada em rebater uma crítica com um ataque pessoal ao oponente. Desta forma, apresenta-se a contradição entre a pregação e o testemunho do opositor. Em outras palavras, é um “cala a boca, que tu também estás errado!”. Nestes tempos de campanhas políticas, é comum esse tipo de argumentação figurar – tanto nos discursos, quanto nos comícios e nos debates. Entretanto, temos de perceber que a utilização desse recurso pelos candidatos tem somente um objetivo: tirar a credibilidade do rival. Mas, atentemos para o fato de que, quando utilizado, o “tu quoque” faz com que o foco do debate seja desviado. Ao invés de discutir-se o tema levantado, passa-se a questionar a ética e a moral dos envolvidos.
Em Caruaru, a campanha eleitoral – ainda – está “morna”. Ou seja, os candidatos não estão “trocando farpas” entre si. Nosso desejo é que esse tom perdure até o dia 5 de outubro. Afinal, não há mais lugar para baixaria nas campanhas eleitorais. As pessoas estão cansadas de ouvir trocas de acusações e briguinhas repugnantes nos horários políticos. Tais comportamentos só contribuem para aumentar a apatia diante dos problemas que maculam nossa sociedade. Queremos uma campanha limpa, na qual os aspirantes a cargos públicos exponham suas idéias para melhorias reais e concretas no nosso cotidiano. Por exemplo, queremos saber o que fará o(a) próximo(a) prefeito(a) e os próximo(as) vereadores(as) no que diz respeito ao caótico trânsito da Capital do Agreste. Queremos saber como ficará a situação de nossas calçadas, que estão sendo invadidas por estabelecimentos comerciais, impossibilitando o pedestre de transitar tranquilamente em vários pontos da cidade. Queremos saber o que será feito com relação ao Rio Ipojuca e à Serra dos Cavalos, visto que a questão ambiental é imprescindível no mundo hodierno. Quais são as propostas no âmbito da saúde, visto que há uma carência de profissionais e de postos de atendimento às comunidades. Queremos saber, também, o que será feito no que concerne à cultura, às artes, ao lazer. Será que teremos de engolir outro “São João” repleto de bandas de plástico? Lembremo-nos que, nestas bandas, “profetas” do absurdo testificam que nossa amada cidade é um prostíbulo e chama as nossas jovens de adjetivos tão torpes que eu jamais conseguiria reproduzir nessas linhas! É bem verdade que nós, crentes em Cristo, não vamos a essas festas “mundanas”, mas é verdade também que, enquanto cidadãos, não podemos permitir que tais acontecimentos odiosos permaneçam.
Há um povo, nesta terra, que não troca seu voto por lentilhas, nem se curva diante das injustiças sociais! Estamos de olho nas propostas, nas idéias e na estrada política dos candidatos. Não nos venham com falsas promessas, nem com projetos faraônicos. Não nos venham, também, querendo usar nossa crença como escada para o poder. Vai o nosso recado, com a licença de Elba Ramalho: “Eles pensam que nosso povo é besta, mas nosso povo não é besta, não!”. É isso...

Jénerson Alves

terça-feira, 24 de junho de 2008

Mídia, povo e bom-senso

Vou voar para o páramo da pureza,
Com o éter de Deus me embriagar,
Pra mim mesmo eu irei inter-rogar:
O que há é imprensa ou é empresa?
Se o incerto só perde a incerteza
Quando passa nas páginas dos jornais,
Pode um santo virar um satanás
Que a mídia falando encontra crente.
Quem na mão tem a massa quer somente
Ter na mão mais dinheiro e nada mais.

Se um escândalo qualquer acontecer
Vira guerra entre falsos moralistas,
Ficam a postos milhões de jornalistas
Disparando matérias pra vender.
Por faltar senso e ética vão fazer
O que a massa sem “massa” quer comprar.
Quem na guerra das vendas não entrar,
Foge logo do campo ou se explode.
O poder é tão grande e ninguém pode
O poder dessa mídia mensurar.

Quem do seu próprio ventre se assenhora
Tem veneno igualmente cobra brava...
Um Roberto Marinho, que pensava
Que era deus, mas voltou ao pó outrora
É a prova que quem sorrir, chora
No efêmero labor dos pecadores,
Vira pobre de luz e de amores
(Muito embora na grana ‘inda enriqueça)...
Esses tais “fazedores de cabeça”
Têm que pôr na cabeça outros valores.

O Brasil ‘tá jogado em um abismo:
Tem seqüestros, assaltos, corrupção,
Máfia, engodo, mentira, perversão,
Preconceito, chalaça, ódio, racismo,
Apartheid, tristeza e egoísmo,
Homens maus que esfriaram o coração,
Mas a mídia só tem a intenção
De mostrar o que quer que o povo veja
(Muito embora o que quer, nem sempre seja
Necesário fazer divulgação).

Mostram shows de malandros travestis
Confundindo moral de fato e ira,
Mas a morte do líder Eugênio Lira
Que há anos se sabe, ninguém quis.
Os cachês do Senado em meu país
Perdem espaço pra briga de casal.
Uma transa é um tema nacional
(Ciccarelli que diga a quem não crer):
Eis um lixo que temos que varrer,
Mas não vejo quem tenha garra tal.

Precisamos mudar esse cenário,
Transformando, formando a informação
Pra mudar esse povo em formação
Vira pouco o esforço necessário.
Se o burguês tem poder totalitário,
Toda a democracia é deturpada.
Vamos nossa “nação” alienada
Transformar em um povo forte, urgente
Promover um futuro diferente,
Que o presente que há não vale nada.

Jénerson Alves

Manifesto contra a leitura

Estou traumatizado. As aulas vão reiniciar semana que vem e estou bastante apreensivo com isso. Recordo-me do olhar iracundo de um jovenzinho de 15 anos que, ao me ver entrar na sala ano passado, expôs seu sentimento de total desconforto. O motivo: "o senhor nos manda ler demais, e eu detesto ler!". Seria cômico, mas é trágico. E, mais trágico ainda, é lembrar que toda a sala apoiou a afirmação do elemento, mostrando-se contra a "torturante" arte de ler. Eu até tentei argumentar, dizendo que a leitura é bem mais do que uma simples decodificação de sinais gráficos, mas sim, uma ferramenta que possibilita o ser humano enxergar o mundo de uma forma mais ampla, compreendendo nuances e decifrando entrelinhas. Mas, isso não serviu para nada.
E, após passar as "férias" pensando nesse acontecimento, cheguei à conclusão de que eles estão certos. Ler é chato!
Sim! É chato quando a leitura é imposta, da forma que faz a maior parte dos "centros de aprendizagem". O aluno tem que "decorar" páginas e mais páginas de um conteúdo, para preencher as lacunas de uma avaliação posterior, utilizando informações fragmentadas que muitas vezes não aparentam ter nenhuma relação com o cotidiano. Portanto, me manifesto contra a leitura. Sim, mas contra essa leitura unívoca e racional, como mero instrumento de absorção de informações.
Para isso, a sociedade precisa reconceituar o papel social da escola. Escuto muitos professores (e pais) dizendo aos alunos: "Estude para passar no vestibular", como se um amontoado de questões fosse a porta da salvação das pessoas. Um band-aid na sobrancelha ou uma cabeça raspada não podem testificar se tal criatura possui uma visão crítica de mundo, tampouco se tal mente tem a capacidade de refletir sobre alguma coisa. Estou cansado de “CDFs” com uma idoneidade de raciocínio diretamente proporcional à quantidade de verbetes lidos em um dicionário. Tenho ojeriza daqueles que não conseguem refutar qualquer argumentação – por mais fajuta que seja! Enojei-me diante dos que se prostram ante um aparelho de TV e louvam seus falsos deuses de forma que, para serem imagem e semelhança dos tais, vão ao Shopping Center (grande templo de Belial) e doam não só os dízimos, mas o soldo inteiro – e com ele as idéias, ideais, a vida até…
Essas cenas me causam temor. Revolto-me contra o mundo e me entristeço comigo. Confesso que chorei bastante nessas férias. Tentei me recompor desse jeito. Consegui. Já posso sorrir quando penso que meus sonhos podem se tornar realidade. Estou bem. Mas, não quer dizer que eu esteja feliz, ou conformado com o mundo.
Não! E esse sentimento revolucionário me faz querer gritar bem alto, para os meus alunos e a todos que, ainda, desejam aprender cada vez mais com o Autor da Vida: "Estudem para se autoconstruirem como indivíduos, como seres pensantes e críticos, mesmo que isso os torne diferentes da massa alienada que os rodeia. Estudem para não serem consumidos pelas pressões escusas da mídia, mesmo que sintam as dores de tais pressões. Estudem para compreenderem a miscelânea da pós-modernidade, mesmo que não possam solucioná-la. Estudem para construir grandes ideais. Estudem para erguerem a voz contra as injustiças, mesmo que sejam chamados de agitadores por causa disso - lembrem-se que Gandhi, Luther King, Tiradentes, Isaías e o próprio Cristo receberam essa alcunha. Não se tornem intelectuais mecanicistas que se isolam em mundinhos próprios e vivem de flashes em baladas. Estudem para não descer ao nível dos ladrões de colarinho branco, que fazem do povo uma escada para conquistarem fortunas – que não compram a felicidade. Estudem para se tornarem juízes justos (sem redundância), médicos que não negam o dom de curar, líderes religiosos que fazem da própria vida a mensagem que pregam, artistas que olham pela janela e não para o espelho. Enfim, estudem, pois dessa forma, poderão transformar o mundo".


Jénerson Alves

O discípulo em uma sociedade pós-moderna

Calma! Reconheço que esse título é capaz de assustar qualquer um, mas quero, a princípio, informá-lo que longe de mim está o desejo de redigir um artigo científico ou um tratado teológico sobre esse tema. Quero apenas convidá-lo a passear comigo por estas poucas linhas e, no transcorrer delas, dialogarmos (sim, por que não?) sobre um tema tão importante para aqueles que anseiam incorporar o caráter de Cristo no seu próprio caráter.
Ok. Discípulo é aquele que sela as palavras de Deus no seu coração (Is 8:16), isto é, quem põe a lei do Senhor no centro de suas vontades, idéias e sentimentos. Quanto a isso, tudo bem, nenhuma novidade. Afinal, escutamos essa definição em tudo quanto é culto - doutrina, oração, mocidade, proclamação, escola bíblica... enfim, nós já internalizamos esse conceito em nossa vida. Por isso mesmo, poderíamos resumir e dizer que discípulos somos nós, concorda? Então, o assunto de nossa conversa é a maneira que nós devemos proceder em uma sociedade pós-moderna. Certo?
Certo. Mas… o que é uma sociedade pós-moderna? De acordo com o escritor Jair Ferreira dos Santos, pós-modernismo é o nome dado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades a partir da segunda metade do século XX. Entre essas mudanças, destacam-se o bombardeio de informações e o carpe diem (“aproveite o dia”, em latim). O desenrolar dessas modificações, no âmbito individual, resultou em um sujeito dessubstancializado, narcisista e sem grandes ideais. Eita, tentando simplificar isso em outras palavras, o homem pós-moderno recebe informações fragmentadas a todo instante, seja pela TV, rádio, internet, outdoor, jornal, revista etc. – isso faz com que seja impossível para ele conectá-las e convertê-las em um conhecimento amplo. Destarte, ele se torna um vivente sem idiossincrasia vasta, pois, na prática, perdeu o conceito de que o tempo é linear e progressivo. Portanto, não há engajamento em mobilizações sociais, sindicais, partidárias etc. Isso é sintoma de uma ótica privatizada de si mesmo, por conta do hedonismo narcisista que impera na mente das pessoas hodiernas.
É verdade. E nossas igrejas não formam uma exceção nesse cenário. Já percebeu que os “grandes ideais” dos membros eclesiásticos, muitas vezes, é conseguir um carro novo ou comprar uma casa nova? E os líderes, quase sempre, se preocupam demasiadamente em “nobres” atividades, como qual vai ser o cantor ou pastor “de fora” que vai participar de determinada programação festiva (como se a “obra de Deus” se resumisse às meras atividades entre crentes salvos, satisfeitos e sentados – sem querer menosprezar as relações interpessoais entre cristãos, elas são importantíssimas)? Não há interesses comuns e abrangentes, o máximo que se consegue é um ou outro evento de marcha, digo, massa. E a vida deixa de ser um plano global e divino para tornar-se uma cadeia de eventos isolados e sem propósitos.
Já viu que todos nós tentamos fazer do nosso cotidiano uma festa? Um gesto corriqueiro – como ir ao templo – muitas vezes é travestido de glória e excessivamente comparado à santidade. A isso, o sociólogo francês Jean Baudrillard chama de espetacularização da vida – a Bíblia chama de “concupiscência da carne” (I Jo 2:16). Já parou para pensar o quanto hipervalorizamos a aparência, pondo-a acima a essência, às vezes? Lembrei-me de um colega meu – não vou dizer que ele é da minha igreja, mas é. Após eu ter comentado que a namorada (dele) era muito bonita, jactou-se e disse: “Bonita mesmo é a foto dela no profile do Orkut!”. Usando as palavras de Baudrillard, mais vale a simulação do real (“concupiscência dos olhos”) do que o próprio real. Sendo assim, mais bela do que a beleza da menina (que é bela mesmo, não vou mentir...) é a beleza da fotografia que ultravaloriza a beleza da garota (vê? É complicado, mas é simples...). Além disso, o sociólogo aponta a sedução do sujeito como característica intrínseca ao pós-modernismo. É o que as Sagradas Escrituras chamam de “soberba da vida”. Seduzir quer dizer atrair. Dá-se a idéia de que o ser é único, mais importante do que os outros. Os fones de ouvido, por exemplo, privam os demais de partilharem a mesma informação que “você”, somente “você” tem acesso. Da mesma forma que “você” vai à igreja para receber a sua bênção. Os louvores, as orações e a pregação devem estar em conformidade com o seu gosto. Caso contrário, a igreja está errada...
Mas não é esse o plano original de Deus! Voltemos para I João 2:16: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo”. A posição do discípulo em uma sociedade pós-moderna é de vivenciar e apregoar que a vida humana não é, nem pode ser uma sucessão de fatos, mas é a expressão da glória de Deus (I Cor 1:31). A aparência das coisas não tem importância para o Senhor, pois Ele “escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas para envergonhar as fortes, Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (I Cor 1:2-29).
O discípulo deve crer “no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir” (como disse Frei Betto); deve ter uma visão de Reino e não de templo; deve ter um olhar à frente e não limitado; deve amar a Deus mais do que tudo e ao próximo como a si mesmo; deve ter a Bíblia como regra de fé e prática, não os estatutos doutrinários terrenos; deve dar-se pelo prazer de dar-se, como Cristo deu-se ao mundo em prol de pecadores; deve chorar com os que choram, gargalhar com os que gargalham; deve se despir de todo sentimento faccioso e revestir-se da armadura de Deus; deve ser uma bênção (Gên 12:2) e não buscar receber incontáveis bênçãos. O discípulo de Cristo deve ser para o mundo como a alma é para o corpo. Sejamos, pois, dessa forma, sal e luz, a fim de colocarmos Jesus Cristo como modelo para um mundo sem referência. Ele é a única substância de amor perene que pode preencher o dessubstancializado ser pós-moderno e nós, os Seus discípulos, somos o único canal capaz de fazer com que isso aconteça.

Jénerson Alves

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