terça-feira, 24 de junho de 2008

Mídia, povo e bom-senso

Vou voar para o páramo da pureza,
Com o éter de Deus me embriagar,
Pra mim mesmo eu irei inter-rogar:
O que há é imprensa ou é empresa?
Se o incerto só perde a incerteza
Quando passa nas páginas dos jornais,
Pode um santo virar um satanás
Que a mídia falando encontra crente.
Quem na mão tem a massa quer somente
Ter na mão mais dinheiro e nada mais.

Se um escândalo qualquer acontecer
Vira guerra entre falsos moralistas,
Ficam a postos milhões de jornalistas
Disparando matérias pra vender.
Por faltar senso e ética vão fazer
O que a massa sem “massa” quer comprar.
Quem na guerra das vendas não entrar,
Foge logo do campo ou se explode.
O poder é tão grande e ninguém pode
O poder dessa mídia mensurar.

Quem do seu próprio ventre se assenhora
Tem veneno igualmente cobra brava...
Um Roberto Marinho, que pensava
Que era deus, mas voltou ao pó outrora
É a prova que quem sorrir, chora
No efêmero labor dos pecadores,
Vira pobre de luz e de amores
(Muito embora na grana ‘inda enriqueça)...
Esses tais “fazedores de cabeça”
Têm que pôr na cabeça outros valores.

O Brasil ‘tá jogado em um abismo:
Tem seqüestros, assaltos, corrupção,
Máfia, engodo, mentira, perversão,
Preconceito, chalaça, ódio, racismo,
Apartheid, tristeza e egoísmo,
Homens maus que esfriaram o coração,
Mas a mídia só tem a intenção
De mostrar o que quer que o povo veja
(Muito embora o que quer, nem sempre seja
Necesário fazer divulgação).

Mostram shows de malandros travestis
Confundindo moral de fato e ira,
Mas a morte do líder Eugênio Lira
Que há anos se sabe, ninguém quis.
Os cachês do Senado em meu país
Perdem espaço pra briga de casal.
Uma transa é um tema nacional
(Ciccarelli que diga a quem não crer):
Eis um lixo que temos que varrer,
Mas não vejo quem tenha garra tal.

Precisamos mudar esse cenário,
Transformando, formando a informação
Pra mudar esse povo em formação
Vira pouco o esforço necessário.
Se o burguês tem poder totalitário,
Toda a democracia é deturpada.
Vamos nossa “nação” alienada
Transformar em um povo forte, urgente
Promover um futuro diferente,
Que o presente que há não vale nada.

Jénerson Alves

Manifesto contra a leitura

Estou traumatizado. As aulas vão reiniciar semana que vem e estou bastante apreensivo com isso. Recordo-me do olhar iracundo de um jovenzinho de 15 anos que, ao me ver entrar na sala ano passado, expôs seu sentimento de total desconforto. O motivo: "o senhor nos manda ler demais, e eu detesto ler!". Seria cômico, mas é trágico. E, mais trágico ainda, é lembrar que toda a sala apoiou a afirmação do elemento, mostrando-se contra a "torturante" arte de ler. Eu até tentei argumentar, dizendo que a leitura é bem mais do que uma simples decodificação de sinais gráficos, mas sim, uma ferramenta que possibilita o ser humano enxergar o mundo de uma forma mais ampla, compreendendo nuances e decifrando entrelinhas. Mas, isso não serviu para nada.
E, após passar as "férias" pensando nesse acontecimento, cheguei à conclusão de que eles estão certos. Ler é chato!
Sim! É chato quando a leitura é imposta, da forma que faz a maior parte dos "centros de aprendizagem". O aluno tem que "decorar" páginas e mais páginas de um conteúdo, para preencher as lacunas de uma avaliação posterior, utilizando informações fragmentadas que muitas vezes não aparentam ter nenhuma relação com o cotidiano. Portanto, me manifesto contra a leitura. Sim, mas contra essa leitura unívoca e racional, como mero instrumento de absorção de informações.
Para isso, a sociedade precisa reconceituar o papel social da escola. Escuto muitos professores (e pais) dizendo aos alunos: "Estude para passar no vestibular", como se um amontoado de questões fosse a porta da salvação das pessoas. Um band-aid na sobrancelha ou uma cabeça raspada não podem testificar se tal criatura possui uma visão crítica de mundo, tampouco se tal mente tem a capacidade de refletir sobre alguma coisa. Estou cansado de “CDFs” com uma idoneidade de raciocínio diretamente proporcional à quantidade de verbetes lidos em um dicionário. Tenho ojeriza daqueles que não conseguem refutar qualquer argumentação – por mais fajuta que seja! Enojei-me diante dos que se prostram ante um aparelho de TV e louvam seus falsos deuses de forma que, para serem imagem e semelhança dos tais, vão ao Shopping Center (grande templo de Belial) e doam não só os dízimos, mas o soldo inteiro – e com ele as idéias, ideais, a vida até…
Essas cenas me causam temor. Revolto-me contra o mundo e me entristeço comigo. Confesso que chorei bastante nessas férias. Tentei me recompor desse jeito. Consegui. Já posso sorrir quando penso que meus sonhos podem se tornar realidade. Estou bem. Mas, não quer dizer que eu esteja feliz, ou conformado com o mundo.
Não! E esse sentimento revolucionário me faz querer gritar bem alto, para os meus alunos e a todos que, ainda, desejam aprender cada vez mais com o Autor da Vida: "Estudem para se autoconstruirem como indivíduos, como seres pensantes e críticos, mesmo que isso os torne diferentes da massa alienada que os rodeia. Estudem para não serem consumidos pelas pressões escusas da mídia, mesmo que sintam as dores de tais pressões. Estudem para compreenderem a miscelânea da pós-modernidade, mesmo que não possam solucioná-la. Estudem para construir grandes ideais. Estudem para erguerem a voz contra as injustiças, mesmo que sejam chamados de agitadores por causa disso - lembrem-se que Gandhi, Luther King, Tiradentes, Isaías e o próprio Cristo receberam essa alcunha. Não se tornem intelectuais mecanicistas que se isolam em mundinhos próprios e vivem de flashes em baladas. Estudem para não descer ao nível dos ladrões de colarinho branco, que fazem do povo uma escada para conquistarem fortunas – que não compram a felicidade. Estudem para se tornarem juízes justos (sem redundância), médicos que não negam o dom de curar, líderes religiosos que fazem da própria vida a mensagem que pregam, artistas que olham pela janela e não para o espelho. Enfim, estudem, pois dessa forma, poderão transformar o mundo".


Jénerson Alves

O discípulo em uma sociedade pós-moderna

Calma! Reconheço que esse título é capaz de assustar qualquer um, mas quero, a princípio, informá-lo que longe de mim está o desejo de redigir um artigo científico ou um tratado teológico sobre esse tema. Quero apenas convidá-lo a passear comigo por estas poucas linhas e, no transcorrer delas, dialogarmos (sim, por que não?) sobre um tema tão importante para aqueles que anseiam incorporar o caráter de Cristo no seu próprio caráter.
Ok. Discípulo é aquele que sela as palavras de Deus no seu coração (Is 8:16), isto é, quem põe a lei do Senhor no centro de suas vontades, idéias e sentimentos. Quanto a isso, tudo bem, nenhuma novidade. Afinal, escutamos essa definição em tudo quanto é culto - doutrina, oração, mocidade, proclamação, escola bíblica... enfim, nós já internalizamos esse conceito em nossa vida. Por isso mesmo, poderíamos resumir e dizer que discípulos somos nós, concorda? Então, o assunto de nossa conversa é a maneira que nós devemos proceder em uma sociedade pós-moderna. Certo?
Certo. Mas… o que é uma sociedade pós-moderna? De acordo com o escritor Jair Ferreira dos Santos, pós-modernismo é o nome dado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades a partir da segunda metade do século XX. Entre essas mudanças, destacam-se o bombardeio de informações e o carpe diem (“aproveite o dia”, em latim). O desenrolar dessas modificações, no âmbito individual, resultou em um sujeito dessubstancializado, narcisista e sem grandes ideais. Eita, tentando simplificar isso em outras palavras, o homem pós-moderno recebe informações fragmentadas a todo instante, seja pela TV, rádio, internet, outdoor, jornal, revista etc. – isso faz com que seja impossível para ele conectá-las e convertê-las em um conhecimento amplo. Destarte, ele se torna um vivente sem idiossincrasia vasta, pois, na prática, perdeu o conceito de que o tempo é linear e progressivo. Portanto, não há engajamento em mobilizações sociais, sindicais, partidárias etc. Isso é sintoma de uma ótica privatizada de si mesmo, por conta do hedonismo narcisista que impera na mente das pessoas hodiernas.
É verdade. E nossas igrejas não formam uma exceção nesse cenário. Já percebeu que os “grandes ideais” dos membros eclesiásticos, muitas vezes, é conseguir um carro novo ou comprar uma casa nova? E os líderes, quase sempre, se preocupam demasiadamente em “nobres” atividades, como qual vai ser o cantor ou pastor “de fora” que vai participar de determinada programação festiva (como se a “obra de Deus” se resumisse às meras atividades entre crentes salvos, satisfeitos e sentados – sem querer menosprezar as relações interpessoais entre cristãos, elas são importantíssimas)? Não há interesses comuns e abrangentes, o máximo que se consegue é um ou outro evento de marcha, digo, massa. E a vida deixa de ser um plano global e divino para tornar-se uma cadeia de eventos isolados e sem propósitos.
Já viu que todos nós tentamos fazer do nosso cotidiano uma festa? Um gesto corriqueiro – como ir ao templo – muitas vezes é travestido de glória e excessivamente comparado à santidade. A isso, o sociólogo francês Jean Baudrillard chama de espetacularização da vida – a Bíblia chama de “concupiscência da carne” (I Jo 2:16). Já parou para pensar o quanto hipervalorizamos a aparência, pondo-a acima a essência, às vezes? Lembrei-me de um colega meu – não vou dizer que ele é da minha igreja, mas é. Após eu ter comentado que a namorada (dele) era muito bonita, jactou-se e disse: “Bonita mesmo é a foto dela no profile do Orkut!”. Usando as palavras de Baudrillard, mais vale a simulação do real (“concupiscência dos olhos”) do que o próprio real. Sendo assim, mais bela do que a beleza da menina (que é bela mesmo, não vou mentir...) é a beleza da fotografia que ultravaloriza a beleza da garota (vê? É complicado, mas é simples...). Além disso, o sociólogo aponta a sedução do sujeito como característica intrínseca ao pós-modernismo. É o que as Sagradas Escrituras chamam de “soberba da vida”. Seduzir quer dizer atrair. Dá-se a idéia de que o ser é único, mais importante do que os outros. Os fones de ouvido, por exemplo, privam os demais de partilharem a mesma informação que “você”, somente “você” tem acesso. Da mesma forma que “você” vai à igreja para receber a sua bênção. Os louvores, as orações e a pregação devem estar em conformidade com o seu gosto. Caso contrário, a igreja está errada...
Mas não é esse o plano original de Deus! Voltemos para I João 2:16: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo”. A posição do discípulo em uma sociedade pós-moderna é de vivenciar e apregoar que a vida humana não é, nem pode ser uma sucessão de fatos, mas é a expressão da glória de Deus (I Cor 1:31). A aparência das coisas não tem importância para o Senhor, pois Ele “escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas para envergonhar as fortes, Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (I Cor 1:2-29).
O discípulo deve crer “no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir” (como disse Frei Betto); deve ter uma visão de Reino e não de templo; deve ter um olhar à frente e não limitado; deve amar a Deus mais do que tudo e ao próximo como a si mesmo; deve ter a Bíblia como regra de fé e prática, não os estatutos doutrinários terrenos; deve dar-se pelo prazer de dar-se, como Cristo deu-se ao mundo em prol de pecadores; deve chorar com os que choram, gargalhar com os que gargalham; deve se despir de todo sentimento faccioso e revestir-se da armadura de Deus; deve ser uma bênção (Gên 12:2) e não buscar receber incontáveis bênçãos. O discípulo de Cristo deve ser para o mundo como a alma é para o corpo. Sejamos, pois, dessa forma, sal e luz, a fim de colocarmos Jesus Cristo como modelo para um mundo sem referência. Ele é a única substância de amor perene que pode preencher o dessubstancializado ser pós-moderno e nós, os Seus discípulos, somos o único canal capaz de fazer com que isso aconteça.

Jénerson Alves

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