segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um presente

Meu amor, perdoe-me nesta data
Se o presente que tenho pra lhe dar
Não é feito de ouro, nem de prata,
Não é brinco, pulseira nem colar,
É o meu coração, feito de carne
Mas você, precisando, pode usar.

Com você eu queria viajar
Pr’ uma ilha pacífica do Atlântico,
Onde à noite a sereia bem distante
Pra nós dois entoasse um belo cântico,
Mas só posso lhe dar esse poema,
Que não é nem bonito nem romântico.

Num cenário de luz, amor e cântico,
Eu queria lhe dar hoje uma mina,
De ouro, prata, topázio, diamante,
Esmeralda, rubi ou turmalina,
Mas a mina que tenho só possui
Os acordes da lira nordestina.

Quero dar-lhe o fulgor que ilumina
As estrelas que brilham sem parar,
Betegeusa, Arcturus, Procyon,
Altair, Vega, Spica e Achernar,
Mas só posso lhe dar como presente
O sincero carinho em meu olhar.

Com pincel, eu queria lhe pintar
Numa tela bendita, uma só vez,
Mas não tenho o talento de Monet,
Renoir ou qualquer pintor francês,
Pra deixar registrada a santa imagem
Da mulher mais bonita que Deus fez.

Um presente eu daria neste mês
Da Chanel, de Paris, um solo bom,
Junto às roupas mais caras da Daslu
E as bolsas mais chiques da Vitton,
Mas só posso, do cofre do meu peito,
Entregar-lhe os resquícios do meu dom.

Pior poderia ser

Na vida de professor
Uso lápis, papel, giz,
Quem vê ironiza e diz
Que eu sou mesmo um “sofressor”.
Sala de aula é terror
Que assusta o meu viver,
Aluno sem aprender,
Grosseiro e mal-educado,
Mas não tô desempregado
Pior poderia ser.

Amo tanto uma donzela
Doce, meiga, sã, sensata,
Pura, fofa, chique, gata,
Talentosa, santa e bela...
Seu laço com o dono dela,
Ela não quer desfazer,
Eu lamento por não ter
Chance de tê-la comigo,
Ao menos sou seu amigo,
Pior poderia ser.

Eu estou muito doente,
Com reumatismo e hepatite,
Cistite e labirintite,
Gonorréia e dor de dente,
Tumor maligno latente
Que acentua o meu sofrer,
Tô quase sem poder ver
E sou soropositivo,
Pelo menos estou vivo,
Pior poderia ser.

Meu casebre defasado
Tem rato entrando e saindo,
As paredes já caindo
E o portão enferrujado,
O teto é esburacado
E após o Sol se esconder,
Luz não preciso acender,
Utilizo a luz da Lua,
Mas se eu morasse na rua
Pior poderia ser.





Meu carro é uma Brasília
Que uso pra trabalhar,
Pra pegar tem que empurrar,
Pra brecar é uma quizília,
Os amigos ou a família
Quando conduzo ao lazer,
Ponho o carro pra correr
Mas ele não sai de dez…
Se eu estivesse de pés
Pior poderia ser.

Nessa minha pátria amada
A cúpula que ordena erra,
Tem terra, mas tem sem-terra,
Tem renda, mas concentrada,
Tem ética, mas de fachada,
Tem crença, mas sem poder,
Polícia sem proteger,
Aluno sem ter escola…
Mas se fosse na Angola,
Pior poderia ser.

Está gamada por mim
Uma mulher muito louca,
Com quatro dentes na boca
E o cabelo pixaim,
A cara de guaxinim,
Fedorenta pra valer,
Não cansa de me dizer
Que amá-la é meu mister
(Graças a Deus, que é mulher…)
Pior poderia ser.


Jénerson Alves, 23/05/2008.

Palavras soltas

Vou escrever neste blog – que tem tudo a ver comigo. Nem o blog é lido, nem eu sou ouvido. Sinto tantos pensamentos latentes em meu coração, mas nem meus lábios conseguem convertê-los em palavras, nem há ouvidos disponíveis a tentar compreendê-los. E assim, meus pensamentos ficam aprisionados nas camadas mais profundas do meu coração. De tal forma que, às vezes, nem eu mesmo me compreendo.
Um pedaço de mim falta para me completar. Estou repleto de um vazio que me torna um nada diante de mim. Quero entender os porquês dos prantos contidos, dos sorrisos abortados, do enfado eterno, da dor incessante...
Quero entender porque nada entendo. Quero olhar para dentro de mim e encontrar um motivo para ir em frente.
Que nada! Isso é besteira…

Mãe sem filho

Eu vi uma velhinha então sentada,
Com uma face tristonha, mas singela.
Sem pensar que pensei, juntei-me a ela,
Lhe saudei, mas ficou ela calada.
Eu olhei que ela olhava para o nada,
Como quem já está sem trajetória,
Um vivente vivendo de memória,
Sempre presa no mundo do sufoco.
Levantei-me. Ela disse: espere um pouco,
Deixe, filho, eu contar-lhe minha história.

Balançando a cabeça, eu disse sim,
Sem sair som algum da minha boca.
A velhinha falou-me com a voz rouca:
O meu tempo na terra está no fim.
Eu fui boa pra quem foi ruim pra mim
Que destino perverso é esse meu!
Vi meu filho nascer, depois cresceu,
Se tornou homem sério, rico e forte,
Mas eu lembro que é má a minha sorte
Porque ele de mim se esqueceu.

Está ele na flor da juventude
Sem notar que eu estou envelhecendo.
Quanto mais o seu nome está crescendo,
Mais meu nome vai pra decrepitude.
Quando viu que perdi minha saúde,
Ele disse que achou seu maior tédio.
Recusava sair do próprio prédio
Pra levar-me pro médico no hospital.
Se esquecendo que quando passou mal
Eu tratava com amor e com remédio.

Quando eu não podia mais com o prato,
Que a comida caía em minha roupa.
Ele olhava com raiva, dava poupa,
Me xingava e tratava com mal trato.
Quando eu não calçava mais sapato,
Para ele era grande rebuliço,
Me dizia que tinha compromisso
E que eu tinha que me orientar,
Me calçar, me vestir, me alimentar
(Mas fui eu que ensinei-lhe tudo isso…)

Se às vezes tentávamos conversar
Em um raro momento estando junto,
Se acaso eu tocasse em um assunto
Ou um caso eu quisesse lhe narrar.
Eu ouvia meu filho me falar
Meu falar ele não queria ouvir,
Sem notar que eu queria dividir
O que a vida mostrou-me a cada dia
Nem lembrar que eu sempre repetia
Historinhas até ele dormir…

Ao ligar esse tal computador,
Objeto pra ele fascinante,
Me julgou por me ver ignorante
Sem saber mensurar o seu valor.
Eu não tenho na mente mais vigor,
E demoro demais para aprender,
Porém nunca fui cega pra não ver
Seu olhar me olhar com tom sarcástico,
Seu sorriso de hipócrita, amor de plástico,
E eu perdendo a vontade de viver…

Hoje os óculos me fazem vez da vista,
A bengala tem força, as pernas não.
Como os dentes caíram, hoje estão
Dentes falsos colados por dentista.
Meus cabelos pintados, cujo artista
Que pintou não pediu para pintar,
Abaixou a cadência pulmonar,
Minha boca mal fala e mal mastiga,
Todo mundo me vê, mas ninguém liga
E aos poucos eu sinto me acabar.

O meu filho comigo não mais mora,
Ele está noutro chão, com novos brilhos,
Só espero que não tenha dos filhos
O presente que ganho dele agora…
Se você tem ainda esta senhora
Que tornou-se a rainha do seu lar,
Lhe ensinou a correr e a falar,
Deu-lhe o leite materno pra beber,
Se recorde de nunca se esquecer
Que não pode esquecer de lhe amar

Ao falar isso tudo, levantou-se,
Lentamente igual quem carrega carga.
Eu pensei pra mim mesmo “está amarga
Esta vida que outrora já foi doce”.
Sem sequer acenar, aos poucos foi-se,
O roteiro da mesma eu já não sei.
Em silêncio somente desejei,
Mãe sem filho, que o filho de Deus dê
O que o filho não dá para você…
Eu tentei segurar. Não deu. Chorei…

Jénerson Alves, 10 de maio de 2009.

Postagens relacionadas:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...