sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Quando a esmola da Globo é demais, o crente desconfia

A música gospel se tornou a espinha dorsal de uma indústria cujos altos cifrões de vendagem e baixos números de pirataria chamaram a atenção da indústria musical secular. 

O potencial consumidor do mercado musical evangélico chamou a atenção da Rede Globo, a partir do seu braço musical, a Som Livre. O resultado foi a produção e exibição do Festival Promessas, que contou com os nomes mais conhecidos do gospel nacional.

Então, as desavenças históricas entre a Globo e os evangélicos (leia-se “entre Globo e Edir Macedo”, leia-se, Globo e Record) são coisa do passado? Não se engane. Nessa diplomacia religiosa há muito de disputa comercial. As TVs vivem de audiência e nada mais natural que a Globo veja os evangélicos não como um campo missionário, mas como seara pronta para a ceifa de lucros e dividendos.

E o que faz o cristão quando se vê como um componente do jogo de mercado? Dá as costas e vai procurar sua turma? Dá uma lição nas víboras capitalistas e vai vender geleia Real de porta em porta? Aproveita a chance de apresentar sua mensagem na maior rede de TV do país?

Mas, qual a mensagem apresentada pelo gospel na Globo? Pergunto isso porque, apesar de Ana Paula Valadão recitar João 3:16, falar da cruz e cantar do Apocalipse como algo a não temer, o que se assistiu antes em boa parte do programa foram alguns cantores falando “derrama, derrama”, “tira o pé do chão, igreja!”, “declare para o Brasil inteiro ouvir”, “levante as mãos que o helicóptero está filmando”.

Para a Globo é bom: o povo adora, ela explora e ainda tira aquela pecha de “emissora do capeta” que algumas igrejas lhe davam. Para o gospel é bom: o cantor vende e ora, o fiel compra e chora; mas nunca é demais lembrar que há vozes honestas e corações sinceros.

E para o evangelho? Há o cristão que vê a mão bem visível do mercado do entretenimento tomando para si a música destinada ao louvor e adoração a Deus. Talvez porque, quando a esmola da Globo é demais, o crente desconfia. E há o cristão que acredita que o evangelho está abrindo portas para chegar ao conhecimento de muito mais gente.

Mas, qual evangelho? O do pula-pula e do oba-oba ou o do chamado à reflexão? O do evangelho de mercado ou o do evangelho apesar do mercado? O do culto à canção ou o do culto com pregação? O do sucesso ou o do serviço? São duas faces da mesma moeda, ou do mesmo evangelho?

A Globo quer audiência e uma fatia do lucrativo mercado musical evangélico. Ponto. Então, caro cantor gospel, vá lá, cante e dê sua mensagem. Só não dá pra dizer, caro cantor, que agora o Brasil é de Jesus, porque não é bem assim que as coisas acontecem.

"Gospel" quer dizer também "evangelho". Os mais empolgados cantaram uma importante vitória desse "gospel" evangelizador. Gospel afirmou-se também como sinônimo de uma produção musical industrial em série. Como embalagem, os mais cautelosos desconfiam que Globo e gospel tem tudo a ver; enquanto mensagem, eles creem que Globo e evangelho não tem nada a ver.

Enfim, a suma de tudo o que ouviste pela voz do gospel na Globo é esta: quem é evangélico e gosta do estilo, assistiu e se emocionou; quem não é evangélico, deve ter mudado de canal; e quem é evangélico e não gosta do estilo, ficou constrangido. Mas, gostando ou não do estilo, deixemos o povo cantar. “Se for de Deus, prosperará; se não for de Deus, ...”

*****
Estão dizendo que o idealizador do programa foi o pastor Silas Malafaia, que teria “profetizado” que um dia estaria falando na TV Globo. Essa informação levou  o pastor Vicente Sabbatino a declarar: “O profeta de nossa geração disse que um dia estaríamos na Globo. O Festival Promessas é apenas o primeiro ato de uma sinfonia de vitória”. Cada geração tem o profeta que merece? Bem, parece que alguns estão bem seguros de que só Jeová é Deus e Malafaia é seu profeta. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

E disse Deus: Haja Ano Novo!

Por Caio Fábio




E disse Deus: Apareçam corpos luminosos nos firmamento do céu da Terra, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles também para sinais e para estações, e para dias e anos; e sirvam de luminares no espaço do céu, para alumiar a Terra.

E assim foi.



Deus, pois, fez os dois grandes luminares avistados da Terra: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; fez também as estrelas que cintilam ao longe.



E Deus pôs o Sol no céu da Terra para aluminá-la, para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas.



E viu Deus que isso era bom.





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Quando não estou em Brasília, moro em Copacabana. Daqui de casa, enquanto escrevo, isso ainda às seis da tarde, já ouço o estampido dos fogos, e o brado exultante que a eles se segue.



2004 vem aí!



É um novo ano, e a humanidade se alegra.



É bem verdade que a humanidade não tem do que se alegrar. Os prenúncios que o planeta nos dá são de que as dores de parto estão para começar.



A natureza nunca gemeu tanto!



Geme pela tortura lenta, sistemática, voluptuosa, tarada e cega que nós, os humanos, lhe impomos.

A Terra aceita eras glaciais, quedas de asteróides, dilúvios, terremotos, maremotos, vulcões, furacões, tufões e o que dela mesma vier.



Nada é trágico quando é uma ação da natureza, pois tais ações nunca são contra ela própria; ao contrário, são nela mesma e para ela mesma.



São apenas estações da própria natureza. Melhoram-na sempre.



O gemido de agora, todavia, não anuncia um parto natural, mas uma sangrenta e primitiva cesariana.

Tem que haver uma Intervenção de Fora da própria natureza para salvar a vida. Do contrário, os humanos acabarão com a Terra.



Sem essa Intervenção de Fora a parturiente Terra não teria espaço para deixar passar o monstro que se engendrou em seu ventre, e que parece desejar nascer para a morte e não para a vida: a humanidade caída!



Os céus terão que ser rasgados.



Estrepitoso estrondo terá que ser ouvido.



Então se verá o Filho do Homem, com poder e grande glória, vindo sobre as nuvens, com os anjos do Seu poder.



E todo olho verá!



Mas os estampidos de Copacabana não anunciam esse Dia. Anunciam o ano de 2012.

Fiquei pensando na contradição humana. Todo mundo com medo da morte e se reunindo para celebrar um ano a menos de existência na Terra.



Para quem não carrega no peito a esperança do Filho do Homem e de Sua volta, o bum, bum, bum dos fogos deveria ser um bum, bum, bum, de celebração da proximidade da morte, não da vida.



Mas não temos como não nos alegrar com o futuro. Fomos feitos para o Sempre. Antes da Queda as estações não anunciavam a nossa morte, mas a nossa vida.



Até que o fruto nos matou...



Entretanto, a ordem para que comemorássemos os tempos, não deixou de nos afligir com esperança.

Então, bum, bum, bum, mesmo que seja incoerentemente soltando fogos para a chegada do dia da morte.



Sei que parece uma fala antitética em relação à Data.



A questão é que aqueles que conhecem a Deus já passaram da morte para vida. Esse assunto já não existe mais, pois se vivemos, para o Senhor vivemos; e se morremos, para o Senhor morremos; quer, pois, vivamos ou morramos, nós somos do Senhor.



Estou mais velho na Terra e não estou mais próximo da morte. Que coisa!



Bum! Bum! Bum! estou a cada dia mais próximo do que já é, e em mim será, pois Nele eu já sou.



Feliz 2012!





Nele, em Quem somos,





Caio.



(Texto feito em 2003, adaptado para o tempo presente)



Fonte: Site do Caio Fábio

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

9 motivos para dar seus livros


Livros trazem dentro de si as vozes de homens e mulheres que muitas vezes atravessaram as décadas, os séculos, para chegar até nós.

É a voz forte dessas pessoas, falando diretamente aos nossos ouvidos numa relação tão íntima, que ouvimos quando lemos tais páginas.
Quando fechamos um livro e o mantemos na estante para o resto de nossas vidas, calamos essas vozes que mereciam ser ouvidas por mais pessoas.
É no que acredito.
Poucos são os livros que realmente precisamos manter em nossa posse.

- Um livro antigo ou raro

- Um livro com uma dedicatória especial, autografado ou que pertenceu a alguém que, para nós, é importante

- Livros de consulta ou de referência, como dicionários ou literatura técnica usada com frequência para o exercício de um trabalho

- Alguma outra situação de que não lembro no momento, mas acho que você entendeu

Livro não é enfeite

Livros não são enfeites ou troféus. Foram feitos para serem lidos. Não para serem exibidos como quem diz: “Veja! Veja! Quantos livros li! Veja como sou culto e inteligente”.
Aqueles livros de que mais gostamos são justamente os livros que devemos passar adiante. Afinal, se gostamos, por que não deixar outras pessoas gostarem deles também?
E, se elas não gostarem, poderão mais uma vez adiante o livro, num ciclo infinito até que ele chegue às mãos, aos olhos e aos ouvidos atentos de uma pessoa como você: a pessoa para quem o autor escreveu aquilo, como quem escreve uma carta destinada a atravessar o rio do tempo e do espaço.
Presentear, quando feito de coração, faz mais bem a quem presenteia do que a quem recebe. Na verdade, faz bem às duas partes.

9 motivos

Assim, considero que há diversos motivos para se presentear ou doar livros que estão em suas estantes, dos mais nobres aos mais práticos:

1. Espaço: se você gosta de ler, novos livros devem chegar a todo instante a sua estante (rima involuntária). Por que não abrir caminho para os livros novos?

2. Limpeza: livros (quando parados) juntam pó. Tenha mais tempo para ler e gaste menos tempo limpando estantes

3. Simplificar: você já pensou em ter menos coisas e ter uma vida mais simples? Assista esta palestra e leia este post que, cada um a seu modo, falam sobre simplificar a vida. A sensação de simplicidade e organização

4. Parar de se importar com empréstimos que não voltam: todo o mundo que empresta livros e fica sofrendo por que eles não voltam deveria ler a Regra de Ouro Para o Empréstimo de Livros

5. Colaborar com a leitura: frequentemente aqueles que mais reclamam de que o Brasil é um país que não lê, que livros são caros e outras chorumelas são aquelas pessoas mais sovinas com os seus livros, contribuindo com o baixo número de livros lidos por ano por pessoa

6. Socializar suas preferências: quando seus amigos gostam dos mesmos autores que você ou compartilham dos mesmos gostos literários vocês têm mais sobre o que conversar. Dando livros de seus autores preferidos você contribui com esse ambiente

7. Ser generoso: não é para bonito ou para dizer que você é generoso. A generosidade é uma qualidade que é um bem em si e quem já descobriu isso não tem como expressar. Por exemplo, a gratidão de um amigo que descobriu um novo autor graças a você não tem preço

8. Exercitar o desapego: poucas coisas são realmente essenciais. E, embora eu ame livros, a posse dos livros não é uma delas. Os livros, seu conteúdo e seu objetivo de espargir ideias, sim, o são. Estamos partindo para um momento em que o ser é mais importante que o ter, as experiências mais importantes que as posses

9. Manter a voz de seus escritores preferidos viva: já falei sobre isso no início do texto, mas julgo importante

Assim, minha sugestão para esse Natal é doe e dê livros que estão em sua estante.
Escolha pelo menos metade deles e experimente o ato transformador que é fazer os livros voarem.
Escolha amigos adequados para livros adequados e presenteie.
Escolha a biblioteca que melhor receberá essas obras, de maneira que eles cheguem ao maior número de pessoas possível.
 
Texto de Alessandro Martins, criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs.


Fonte: Livros e Afins

Reportagem da emissora Globo “Falsas citações, atribuídas a grandes autores, circulam na internet”

Link – Reportagem da emissora Globo no programa Bom Dia Brasil, com o pastor Ricardo Gondim. Tema “Falsas citações, atribuídas a grandes autores, circulam na internet”.


http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/11/falsas-citacoes-atribuidas-grandes-autores-circulam-na-internet.html

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Igreja Batista Emanuel celebra 16 anos


Entre os dias 9 e 11 de novembro, a Igreja Batista Emanuel em Caruaru (Ibec), comemora 16 anos de existência. Portanto, a comunidade eclesiástica contará com uma programação especial, integrando a participação de cantores e preletores de prestígio em toda a região.


Na sexta-feira (9), o culto inicia às 19h30, e haverá a presença do cantor Emerson Augusto. Ele é filho do também cantor Afonso Augusto (em memória), que foi uma referência na música cristã contemporânea em Pernambuco. A prédica será ministrada pelo Pastor Marcelo, da Igreja de Deus no Brasil.

No sábado (10), o louvor e a pregação estarão por conta do pastor Marcos Antônio, da Igreja Apostólica Shekná, com uma linha de aplicação prática das verdades bíblicas.

No domingo (11), a ministração da Palavra durante o culto matutino (9h) será do pastor Célio Correia, da Igreja Batista da Esperança. À noite, a partir das 18h, será a vez do pastor Adriano Borges (Igreja Batista Memorial) pregar o Evangelho. O louvor contará com a participação do cantor Erasmo Miguel.

Todavia, no domingo, ao meio-dia, a Ibec promoverá um almoço coletivo, com a participação de integrantes e amigos da comunidade religiosa. A Ibec fica localizada na Rua Elias Ferreira dos Santos, 6, Bairro das Rendeiras.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Queridos amigos cristãos, só umas dicas...

Por Juliana Dacoregio, jornalista e escritora


Óbvio que os erros a seguir não se aplicam a todos os crentes, mas infelizmente a maioria ainda se comporta de tal forma.


Na ânsia de apresentar Jesus aos descrentes e sofredores, você se atém apenas aos trechos bíblicos que afirmam que “Jesus é o caminho, a verdade e a vida” e que “ninguém chega ao Pai se não por ele”. Tudo bem, eu sei, é nisso que você crê: quem não “aceitar Jesus” vai chorar e ranger os dentes pela eternidade. Mas, calma lá, devagar com o andor que o santo é de barro. (Aliás, você não é de barro? Então por que toda essa presunção de acreditar que você conhece a verdade e eu não?) As pessoas precisam ser amadas, primeiramente. E elas não se sentirão amadas se você não escutá-las, se você não tentar compreender os motivos, os gostos e os desejos delas.

Muitos de vocês não admitem que alguém seja consolado com qualquer coisa que não seja a Bíblia, filmes cristãos ou hinos de louvor. Meu amigo, deixe de ser ignorante e “menino na fé”, como exortou Paulo. Você pode até acreditar que Jesus é o único caminho, a única salvação, a única maneira de alguém chegar a Deus, mas Deus têm mil maneiras de chegar aos homens e não é apenas através da prepotente ousadia humana em “pregar a Palavra”. Já assistiu ou leu Os Miseráveis? Já percebeu a mensagem de perdão que este filme/livro passa? Já percebeu o quanto de princípios cristãos há em Um Sonho de Liberdade? Sabia que alguém pode sentir-se tocado por Deus ou por uma paz grandiosa lendo autores que, aparentemente, nada têm de cristãos?

Abra sua cabeça, meu irmão evangélico. Se você apenas se preocupa em salvar as almas do Inferno e não presta atenção ao Inferno que está dentro delas, me desculpe, mas você não está fazendo isso certo. A libertação é aqui e agora, porém com um passo de cada vez. Não estrague tudo quando alguém lhe falar sobre depressão. Não seja hipócrita a ponto de tomar direitinho seus remédios para pressão alta ou sinusite e acreditar que doenças psiquiátricas são do diabo e que se eu estiver de bem com Deus não vou mais precisar do meu psiquiatra, dos meus remédios, da minha terapia.

O maior ato cristão é estar presente, às vezes apenas assistindo a um filme junto, dando uma carona, tomando um sorvete, compartilhando problemas, trocando experiências, de deixando também ser ajudado, enfim, se mostrando humano, revelando suas falhas e não tentando parecer uma fortaleza.

Você, cristão, quer ser exemplo e referência, mas esquece de amar. Esquece que o amor tudo suporta. Você não quer ser suporte, quer ser o dono da razão, quer ver as pessoas dizendo “Jesus, eu te aceito em minha vida”, mas não quer estar ao lado enquanto ela se recusa a crer. Enquanto isso, muitos descrentes, budistas, muçulmanos, judeus, agnósticos e ateus estão dando a mão a quem precisa e sendo exemplo de companheirismo e amor. Não venha me dizer que nada disso adianta, que o único amor eficaz é aquele que vêm de quem acredita em Jesus Cristo como único Senhor. Amor SEMPRE adianta. Amor SEMPRE consola. AMOR SEMPRE DÁ BONS FRUTOS. (Estão aí os twittes do @EmersonAnomia que não me deixam mentir!)

Se você está apenas querendo apresentar a sua verdade e não se coloca no lugar do outro, sinto muito, mas o seu Jesus provavelmente olha pra você, balança a cabeça em desaprovação, faz tsc...tsc... e pensa “ai, meu Deus, esse aí tem muito o que aprender”.

"Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor"  (1 Coríntios 13:13)

Fonte: Heresia Loira

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Gramática dos Sonhos



Eu só quero no futuro
Ter um pretérito perfeito,
Então, tento ser sujeito
De um presente santo e puro.
Antes que o Sol escureça
E que eu baixe a cabeça
Ante a presença da dor,
Quero sorrir e sonhar
E, sem rancor, desfrutar
De uma aurora de amor.

Não quero fazer da vida
Um futuro do pretérito,
Mas, ao partir, quero o mérito
De uma vida bem vivida.
Quando tremerem meus braços
E eu não puder dar abraços
Na musa dos sonhos meus,
Não quero ficar sem paz,
Mas quero olhar para trás
E dizer “graças a D-us”.

Não quero pôr reticências
No lugar de exclamações,
Nem pôr interrogações
No bojo das consciências.
Ao me espantar no caminho
E me deparar sozinho
Com o espelho de minha alma,
Não quero ser humilhado,
Quero estar embriagado
Com o doce néctar da calma.

Que as vírgulas da caminhada
Não pausem minha esperança
E eu prossiga em marcha mansa
Pelo rumo da alvorada,
Pra quando o som da canção
Não tocar meu coração
E faltar voz em minha boca,
Ao cessar toda cantiga,
Que a voz alheia não diga
Que minha alma era oca.

Antes que o verbo viver
Não se conjugue pra mim
E a massa pare pra ver
Da minha matéria o fim,
Desejo viver por fé,
Sabendo a vida o que é,
Trabalhando em justa messe,
Bordando no mundo a flor,
Lembrando do Criador
Que de mim jamais se esquece.

Quando findar minha guerra,
De D-us ouvirei a voz,
Que um ponto final na terra
Traz novo parágrafo após.
Depois que Cristo voltar
Eu hei de ir para o Lar
Ver as bodas do Senhor
E, entre um eco de glória,
Vou fazer eterna história
Junto do Eterno Autor.

Jénerson Alves, 11-11-2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Apenas uma Pequena Mentirinha

Na semana passada, fui retirar dinheiro de um dos bancos na rua em que moro. Logo depois de sair, ouvi a voz de um homem atrás de mim. “Não posso falar. Estou dentro do laboratório e já vou ser atendido…
Intrigada, virei-me para ver o rosto do mentiroso, já que não havia nenhum laboratório móvel encostado na calçada. Em vez disso, vi as costas de um trio se afastando rapidamente, ladeira abaixo—pai e mãe, cada um segurando na mão de uma menina de uns cinco ou seis anos que andava entre eles.



Continuei olhando enquanto que ele tirou o celular do ouvido com a mão esquerda e o enfiou no bolso.  Foram se afastando de mim e eu retomei o meu próprio caminho, mas sem retomar meus pensamentos anteriores, pois agora estava refletindo sobre as implicações daquilo que eu havia ouvido e visto nos poucos segundos em que fora participante involuntária na vida daquela família.
Por que aquele homem mentiu? Poderia até ser uma declaração baseada num acontecimento e local verídico—ele (ou a filha, ou a esposa) realmente estava a caminho de fazer um exame nolaboratório localizado a uns cem metros dali. Talvez estivesse atrasado, sem tempo para conversar naquele momento. Ou eles já haviam feito o exame, e haviam saído de outro laboratório três quarteirões acima do banco. A “única inverdade” então seria a respeito do tempo—ele estava transferindo um evento futuro oupassado para o presente.
Continuei cogitando—Mas p’ra que fazer isto? P’ra que inventar uma inverdade? Afinal, o que tinha demais ele estar na rua, a alguns quarteirões do laboratório, em vez de que já estar dentro dele? Será que ele não poderia ter dito a verdade—“Estou a pé numa rua barulhenta, e vou fazer um exame de laboratório?” (futuro). Ou “Estou voltando de levar minha filha a um exame de laboratório e estamos correndo na rua para pegar a condução” (passado). Por quê a mentira?
Algumas possibilidades foram surgindo na minha mente, que lutava para encontrar uma solução que poderia elucidar a razão por trás da opção daquele senhor para fornecer uma informação que não refletia a realidade, especialmente numa situação tão corriqueira e aparentemente irrelevante, que nem aparentava ser uma de pressão ou coação.
Poderia ser que ele não ia, ou não foi, para laboratório algum.  Talvez ele não estivesse acostumado a mentir. Esta invenção havia sido improvisado na hora para explicar sua ausência no trabalho e ele não havia tido tempo para trabalhar os detalhes. Mais tarde, ele descobriria que o chefe estranhou o som de carros buzinando e do ônibus freando bem dentro de um laboratório!
Por outro lado, ele poderia ser uma pessoa que dava tão pouca importância à veracidade dos detalhes, que mentia descaradamente em qualquer situação, sem nem se dar conta da quantidade de inverdades que proferia em situações do dia-a-dia.
Já na entrada do meu prédio, enquanto esperava o porteiro abrir para mim, mais um detalhe daquilo que havia visto surgiu na minha memória, como se tivesse feito um zoom numa máquina fotográfica. Percebi que na cena clicada na minha mente, e que ainda visualizava, a menininha parecia prestes a tropeçar, pois estava olhando totalmente de lado, para cima, como se estivesse também ouvindo a conversa do pai. Estaria perplexa? Ousaria questioná-lo? E se o fizesse, qual seria a sua resposta?….
Minha mente agora faz outro zoom. Para o futuro. Pai e filha estão conversando no celular.
Vislumbro uma mocinha. O Papai quer saber onde ela está.
Percebo uma moça. O Papai pergunta o que ela está fazendo.
Vejo uma mulher. O Papai está querendo saber quando ela vem visitá-lo novamente. Ela olha para a menininha ao lado, com quem anda na rua, de mãos dadas.
O que ela dirá?  Qual será a sua resposta?

Com estas 10 ideias seu título vai fisgar o leitor

Publicado originalmente no Livros e Afins
O título é como aquela pessoa que, quando passa, o trânsito para. As coisas ficam fora de foco e você só a vê caminhando em câmera lenta.
Você só a viu uma vez, mas quer saber tudo sobre ela.
Um bom título é assim. Depois de lê-lo, você quer saber tudo sobre ele e, para isso, acaba lendo o texto inteiro.
Desde que o restante tenha sido tão bem redigido quanto o título. Mas isso é uma outra história.
A seguir, ensino algumas técnicas que podem fazer com que o seu leitor se apaixone por seu título e tenha mais chance de se enamorar perdidamente por seu texto.
Mas de nada adiantam essas técnicas se você não conhecer a fundo as mecânicas que me fizeram chegar a elas.
1. Use verbos que sugiram ações e imagens.
Alguns verbos – como ser, estar, lançar – são muito neutros. Não causam comoção. Use verbos que sugiram ações dinâmicas. Veja o título deste artigo: a ação é vai fisgar. Todo mundo já fisgou ou já viu como é fisgar um peixe em um filme pelo menos. É violento, é forte, é sugestivo.
2. Prometa algo. Mas cumpra.
Todo mundo gosta de promessas, principalmente das que são cumpridas: “Com estas 7 idéias, você vai conquistar o amor de sua vida”. Mas se você não souber como fazer para conquistar o amor da vida do leitor, não prometa ou vai perdê-lo para sempre. Choro e ranger de dentes pra você.
3. Use a pontuação a seu favor!!!!
No mar de feeds e de títulos por onde o internauta navega atualmente, qualquer diferença gráfica captura o olhar. Uma exclamação, umas reticências, uma interrogação no meio do título funcionam bem: “Devo comprar um iPhone? Não.” As reticências, além disso, são boas porque dão um ar duvidoso ao título e inspiram uma ponta de curiosidade: “Comprei o iPhone… nu”. Não use pontuações diferenciadas em excesso ou elas perdem o efeito.
4. Que tal um 69? Numerais são sexy, baby.
Da mesma forma que a pontuação, numerais chamam mais a atenção do que suas versões por extenso. Um caractere isolado na frase, 6, por exemplo, é um imã para o olho. Além disso, de imediato dá a idéia de uma lista – que todos adoram – e sugere um raciocínio organizado, fácil de entender. Alguns preferem usá-los no meio da frase. Outros no começo. Eu acho que tanto faz, desde que não se abuse deles.
5. Fale com o leitor.
Alguns blogs preferem usar a linguagem neutra dos jornais em seus títulos. O editor de blog está cansado de saber que seus textos não são jornalísticos a não ser que ele queira assim. O quente dos blogs é que eles podem ser pessoais. Pode usar o “você” sem medo. Fale com seu leitor desde o início do relacionamento. E o início é o título. Mas não precisa usar esse recurso sempre.
6. Chame para o desafio.
Assim como promessas – que devem ser cumpridas, não esqueça -, desafios mexem com o brio do leitor. Cutucado por seu título, ele vai querer ler só para provar que você está errado ou que é capaz de realizar aquilo que tão maldosamente você disse que ele não era: “Desista! Este joguinho é impossível de ser completado!” ou “Se você não rir dessa história… é porque perdeu os dentes”.
7. Ouse: seja curto e grosso.
Imagine o impacto que um artigo cujo título seja tão somente “Não!”. Eu nunca tentei, mas dependendo do efeito que se queira causar pode ter resultado. Coisas nesse formato chamam a atenção: “Eu. Você. E uma tuba”. O vazio deixado pelas palavras colocadas secamente na tela, sem verbos e adjetivos, deixa muito espaço para a curiosidade tomar conta da mente do leitor.
8. Confesse algo.
Confessar algo tem dois efeitos principais possíveis. Ou o leitor se identifica com você, por ter cometido o mesmo pecado. Ou ele vai querer rir de sua experiência. Ou alguma coisa do gênero. Em todos os casos, ele será compelido a ler: “Deixei meu iPhone cair na privada”.
9. Vá contra o senso comum
O senso comum, por ser comum, domina a opinião de muitas pessoas. Se você questiona algo assim, inevitavelmente chama a atenção: “Piquet melhor que Senna. Saiba por quê”. Mas atenção: ao ir contra o senso comum, prepare-se para ter tudo muito bem explicadinho e, ainda assim, correr o risco de enfrentar a fúria da turba.
10. Não diga tudo no título…
Se as strippers aparecessem nuas no palco, não chamariam tanta a atenção. Elas tiram a roupa um pouco de cada vez e todo mundo fica louco. O título, via de regra, é o resumo do texto. O supra-sumo. Mas uma boa idéia é não entregar tudo nele. Deixe que o leitor queira descobrir o que vem depois: “Meu iPhone caiu na…”
Lembre-se!
Você pode usar essas idéias, intercalando-as. Também não é preciso usá-las sempre, para não desgastá-las. Nem sempre você quer chamar a atenção em demasia. Às vezes é bom ser discreto. Afinal, se tudo chama a atenção, nada chama a atenção.

sábado, 29 de outubro de 2011

A Escravidão

Vieram ao Brasil os negros
Nos torpes navios tumbeiros
Massacrados pelas mãos
De burgueses fazendeiros
Num capítulo que envergonha
A todos os brasileiros.

Trabalhando nos celeiros
Pra cruéis usurpadores
Na história apelidados
De “pés e mãos dos senhores”,
Receptáculos de chagas,
De injustiças e dores.

Mesmo assim, lançaram flores
Nos lugares que estavam,
Que as mães brancas que pariam
Dos seus filhos não cuidavam
E nos seios das amas negras
Os bebês brancos mamavam.

Quando eles se revoltavam
Para os quilombos fugiam
Mas algozes capatazes
Num instante lhes seguiam
E a brisa da liberdade
Por pouco tempo sentiam.

Todo o trabalho faziam
Na mais triste exploração
Lhes eram negadas chances,
Padeciam feito cão,
E o chicote deixou marcas
No corpo e no coração.

Porém na nossa nação
Tem a data registrada
No dia 13 de Maio
Foi a Lei Áurea assinada
Libertando no papel
Essa gente escravizada.

Entretanto, não fez nada
Do que o papel propala,
Só mudaram de cenários,
De chicote para bala,
E hoje mora na favela
Quem morava na senzala.

Está o negro sem fala
Padecendo cruelmente
Quem diz que não racismo
No Brasil atualmente
Não mostra um negro que seja
Cardeal nem presidente.

Escravidão é presente
Não é mancha do passado
O racismo ainda impera
E é o negro explorado
A Justiça não é cega
Mas tem o olho vendado.

O negro é discriminado
Na tradição e na fé
O cristão rejeita os mitos
Da umbanda e candomblé
E diz que a crença do negro
Coisa do Diabo é.

Tem um negro igual Pelé,
Rei dos Campos, que controla.
Porque pra branco racista
O negro só desenrola
Correndo de um lado a outro
Como jogador de bola.

O negro que se atola
Nessa terra brasileira
Se é mulher, dizem que serve
Pra ser uma cozinheira,
E homem, pra ser pagodeiro
Ou pra jogar capoeira.

Padecendo na fileira
Dos menos favorecidos,
Os negros não são trocados,
Nem comprados e vendidos,
Mas sofrem do mesmo tanto
E ninguém ouve seus gemidos.

Muitos estão esquecidos
De não julgar pela cor,
De não tratar o seu próximo
Como ser inferior,
E de plantar no coração
Uma semente de amor.

Lá em São Paulo quem for
Recorda o caso da Zara
Uma empresa escravocrata
Que a mídia não escancara
Pois onde sobra jabá
Falta vergonha na cara.

No Maranhão se depara
Gilson Freire de Santana,
(De Açailândia foi prefeito),
Criatura desumana,
Tinha quase vinte escravos
Na sua terra tirana.

A nossa nação se irmana
Na lembrança tristemente
Na Fazenda Caraiba
Em um passado recente
Foi denunciado um caso
De escravidão cruelmente.

Ali naquele ambiente
Não praticavam ações boas,
No Estado Maranhão
Com maltratos e achoas
Foi mostrada a exploração
De 53 pessoas.

Ameaças e achoas,
Existiam no ambiente,
O MP bateu forte
O juiz tomou a frente
E Inocêncio Oliveira
Nada possui de inocente.

No Pernambuco da gente
Houve um fato nada bom
Trabalho escravo inconteste
(Ficou abafado o som),
Cabo de Santo Agostinho,
Metalúrgica Tecalmon.

Precisa mudar o tom
Dessa inércia que ainda há
Mobilizar as pessoas
Pra não ficar como está,
Gritemos, pois, em uníssono,
“Fim da Escravidão já!”

Jénerson Alves, 25-10-2011

(Atendendo a pedido de minha amiga Ennek)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ex-prefeito mantém trabalhadores em curral com animais

Médico e dono de hospital, Gilson Freire de Santana, que foi prefeito de Açailândia (MA) entre 1997 a 2000, é dono da Fazenda Santa Maria, de onde 19 pessoas foram libertadas. A maioria dormia no curral, junto com animais

Por Bianca Pyl


Operação do grupo móvel de fiscalização encontrou 19 trabalhadores, um deles com 17 anos de idade, em condições análogas à escravidão em propriedade rural pertencente ao médico Gilson Freire de Santana, que foi prefeito de Açailândia (MA) entre 1997 e 2000 e é dono do Hospital Santa Luzia. Do total de libertados da Fazenda Santa Maria, 15 dormiam no curral, ao lado de animais e de agrotóxicos. As outras quatro pessoas resgatadas estavam em uma casa precária de madeira, com o teto prestes a desabar.

"O empregador igualou os trabalhadores aos animais que possui", comparou Márcia Albernaz, auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que coordenou a operação. Os empregados dormiam em redes, trazidas por eles mesmos de suas casas, e enfrentavam dificuldades para descansar por causa do barulho dos animais. "Quando dava 3h da manhã, ninguém conseguia dormir mais. Nosso horário [para acordar] era 6h30, mas o vaqueiro chegava gritando com os bichos e aí era uma barulheira danada a madrugada toda", contou João*, que trabalhou por quatro meses no local, foi libertado durante a ação e conversou por telefone com a Repórter Brasil.

Não havia instalação sanitária adequada e nem chuveiros. O banho era tomado a céu aberto. Quando chegaram ao local, os empregados tiveram que construir  um "abrigo" de lona, por conta própria e sem ter receibido pelo serviço, para tomar banho de caneca. "Como a gente não tinha material [suficiente], só dava para cobrir da cintura pra baixo. A água vinha lá da casa do vaqueiro e ficava armazenada em um tambor", explicou a vítima.

A atividade principal desenvolvida na Fazenda Santa Maria é a criação de gado bovino para corte e para produção de leite. De acordo com a fiscalização, o rebanho criado no local soma mais de 1 mil cabeças. Os libertados eram responsáveis pelo "roço de juquira" ("limpeza" para formação de pastagem), bem como pela ampliação e manutenção de cercas. Parte do grupo trabalhava na construção de uma casa próxima à sede.

Os alimentos não eram armazenados de forma adequada e o lixo também não era retirado com regularidade, o que fazia com que o local estivesse infestado de ratos. Os trabalhadores construíram uma cozinha improvisada com tábuas de madeira. A comida era comprada pelos próprios empregados, que juntavam dinheiro e compravam os mantimentos todo mês.

"Cada um dava R$ 50. Aí a gente comprava a comida do mês todo", relatou João. Os trabalhadores faziam um rodízio para cozinhar: a cada dia, um deles ficava responsável pelo preparo da comida. A água usava para beber também vinha de um poço localizado na sede da fazenda. "A gente pegava água lá da casa do vaqueiro [alojado na sede] e colocava em dois tambores, um para banhar e outra para beber e fazer comida. Esse [último] a gente cobria com um pano", completou João. Não havia local para as refeições.

Os libertados não utilizavam nenhum equipamento de proteção individual (EPI); nem mesmo aqueles que se dedicavam à aplicação dos agrotóxicos. Além disso, as roupas dos aplicadores eram lavadas por eles mesmos junto com as outras, o que ampliava o risco de contaminação.
Nenhum dos empregados tinha registro na Carteira de Trabalho e da Previdência Social (CTPS) e o empregador não pagava o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Moradores da região de Açailândia (MA), eles estavam no local há meses; alguns trabalhavam desde maio de 2010.

Com apenas 21 anos, João declarou sentir os efeitos dos anos de trabalho sem a proteção adequada. "Eu sempre bati veneno [aplicação de agrotóxico], né. Só que nunca usei máscara nem nada", contou. Ele reclama de dores, tem acordado enjoado e vem sentindo vontade de vomitar com freqüência.

O libertado declarou ter conhecido "doutor" Gilson quando este último estivera em outra de suas terras para efetuar o pagamento dos empregados. O médico possui outras duas fazendas próximas à Santa Maria: a Berro D´Água, com mais 1 mil cabeças de gado, e a Paraíso. "A gente dormia em outra fazenda dele e ele foi lá ver o trabalho. Depois, fomos para a Santa Maria, onde ainda nem tinha alojamento. E ele nunca foi ver a nossa situação".

O MTE lavrou 31 autos de infração contra o ex-prefeito de Açailândia (MA) por conta das irregularidades encontradas. A ação foi realizada no início de setembro. Contudo, as verbas rescisórias e o valor por dano moral aos trabalhadores só foram efetivamente pagos pelo empregador em 27 de setembro, após a intervenção do Ministério Público do Trabalho (MPT). A procuradora Andrea Tertuliano de Oliveira, que participou do grupo móvel, entrou com uma ação específica para bloquear os bens do fazendeiro. Logo após a fiscalização, Gilson havia se recusado a efetuar o pagamento dos direitos trabalhistas e das indenizações, que somaram R$ 69 mil.
Por conta do risco que corriam, os trabalhadores foram imediatamente retirados do local e aguardaram o encerramento da fiscalização em um hotel na cidade. Gilson também chegou a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), mas não cumpriu o acordo de pagar os trabalhadores. O empregador não foi localizado pela reportagem para comentar o caso.
Operação Mauritia
A equipe do grupo móvel que libertou trabalhadores da fazenda do ex-prefeito também participou da Operação Maurítia (nome científico do buriti), que teve como objetivo averiguar o funcionamento de serrarias que fazem extração ilegal de madeira da Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi e das Terras Indígenas (TIs) Arariboia, Alto Turiaçu, Caru e Awá. A blitz, que contou com o envolvimento de mais de 180 agentes públicos, foi composta pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Força Nacional, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além do MPT e do MTE.
De acordo com a auditora fiscal Márcia, diversos problemas trabalhistas foram encontrados nos pontos inspecionados, mas não houve flagrantes de trabalho escravo. "Enviamos à chefia da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Maranhão (SRTE/MA) três proposições de interdição de serrarias que colocavam em risco a segurança dos trabalhadores".

*nome fictício para proteger a identidade da vítima

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Deputado propõe lei para banir empresa que usar escravos



O deputado estadual Carlos Bezerra Júnior (PSDB, foto) protocolou, nesta sexta (21), projeto de lei para cassar a inscrição no cadastro de contribuintes do ICMS (Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) de empresas que façam uso direto ou indireto de trabalho escravo no Estado de São Paulo. Na prática, as empresas que comprovadamente utilizarem essa forma de exploração da mão-de-obra, perderão seus registros e deixarão de existir para transações formais. Além disso, os responsáveis por elas ficarão impedidos de exercerem o mesmo ramo de atividade por dez anos.
Em sua página na internet, Bezerra – que é vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos na Assembleia Legislativa – afirmou que “o projeto de lei apresentado põe São Paulo na vanguarda da defesa dos direitos humanos no Brasil”.
Hoje, há três formas principais de punição a quem usa trabalho escravo no Brasil: a) as multas do Ministério do Trabalho e Emprego que, apesar do baixo valor, são porta de entrada para a “lista suja” do trabalho escravo, cadastro interministerial utilizado por bancos e empresas, públicas e privadas, e por alguns estados, para restrição de crédito e boicote comercial; b) ações civis, condenações e propostos pelo Ministério Público do Trabalho e decididos ou confirmados pela Justiça do Trabalho – alguns deles tendo chegado a R$ 5 milhões; c) ações e julgamentos criminais, principalmente na dobradinha Ministério Público Federal/Justiça Federal. O artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, prevê de dois a oito anos de cadeia para esses casos. Infelizmente, apesar da situação ter melhorados, ainda há poucas condenações (algumas dezenas de casos frente aos milhares de fazendas com libertações), dependendo do comprometimento de alguns juízes para com o tema.
Há projetos tramitando no Congresso Nacional, em Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais para endurecer o tratamento dado aos infratores – da mesma forma que há iniciativas para facilitar a vida deles. O projeto mais importante é a proposta de emenda constitucional 438/2001, conhecida como a “PEC do Trabalho Escravo”, que prevê o confisco de terras em que esse crime for encontrado. Aprovada no Senado e em primeiro turno na Câmara, ela aguarda a segunda votação desde 2004 para depois voltar para análise dos senadores por conta de alterações realizadas pelos deputados.
Bezerra foi responsável por protocolar um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar crimes de trabalho escravo em São Paulo, após o caso envolvendo as roupas produzidas para a rede Zara vir a público. O pedido teve o número suficiente de assinaturas, mas como só cinco CPIs podem funcionar ao mesmo tempo, ela não pode ser implantada ainda. Ele também organizou sessões para discutir o caso com os demais deputados e a sociedade civil.

A importância de ler os clássicos


Publicado originalmente no Portal Vermelho
Muita gente já profetizou sobre o fim dos livros e até da literatura, acossados por cada nova iParafernália anunciada pela Apple. Poucos, porém, o fizeram com tanta autoridade e com tanta ênfase quanto o mítico escritor norte-americano Philip Roth, em entrevista publicada na última edição da revista Época.
“A cultura literária como conhecemos vai acabar em 20 anos. Ela já está agonizando. Obras de ficção não despertam mais interesse dos jovens, e tenho a impressão de que não são mais lidas. Hoje, a atenção é voltada para o mais novo celular, o mais novo tablet. Daqui a poucas décadas, a relação do público e do escritor com a cultura será muito diferente. Não sei como será, mas os livros em papel vão acabar. Surgirá outro tipo de literatura, com recursos audiovisuais e o que mais inventarem”, disse à Época um desiludido Roth, que há não muito chegou a anunciar que não escreveria mais.
A sentença do fim da cultura literária anunciada por Philip Roth vem na sequência de um ronrom no meio literário sobre o mesmo assunto envolvendo o nome de um outro escritor não menos célebre, Umberto Eco. Correu a notícia de que Eco estaria reescrevendo sua obra-prima, “O Nome da Rosa”, em uma linguagem mais simplificada, para a geração internet, uma espécie de “O Nome da Rosa para Leigos”.
Elementar demais, meu caro Watson
O novo “O Nome da Rosa” teria menos referências eruditas e seria mais “amigável” para a leitura em tela. O escritor italiano correu para desmentir os boatos, dizendo que está fazendo apenas uma revisão do livro, corrigindo erros para uma nova edição. Mas a notícia de que as aventuras de William de Baskerville e Adso de Melk ganhariam uma linguagem mais moderna já tinha saído nas páginas de alguns dos maiores jornais da Europa, como o francês Le Monde, o espanhol El País e o italiano La Repubblica.
Os boatos sobre Umberto Eco colocaram lenha em uma fogueira que arde e estala com altas labaredas há pelo menos dois anos, desde que a tradicionalíssima editora britânica Penguin causou alvoroço no mundo literário ao anunciar o lançamento de uma coletânea um tanto herética: a reunião de 60 clássicos da história da literatura recriados no Twitter.
Neste livro, Sherlock Holmes informa sobre suas investigações em tempo real, economizando artigos e pronomes: “Investigação continua. Deduzi coisas brilhantes a partir de poucas evidências. Percebeu restos de sal nos sapatos do dono da fábrica?”. Estaria Conan Doyle dando cambalhotas na sepultura?
Werther em 140 caracteres de sofrimento
E Goethe, que diria do seu jovem Werther resumindo os males da alma assim, em 140 caracteres: “Já disse o quanto estou chateado? Estou muito chateado. #pain #angst #suffering #sexdep”?
Diferentemente da adaptação de obras célebres para os quadrinhos, por exemplo, o incômodo com iniciativas como a da Penguin ou com rumores sobre um upgrade, por assim dizer, em “O Nome da Rosa” é a sensação de que se está sendo arrastado por uma torrente irrefreável. Mas há escritores que estão nesta torrente de bom grado. Cerca de um ano após o anúncio do “Twitterature” da Penguin, a Companhia das Letras organizou a série “Clássicos no Twitter”, na qual escritores como Milton Hatoum aceitaram reduzir clássicos da literatura inteiros a 140 caracteres para serem publicados no serviço de microblogging.
É interessante constatar como a discussão sobre literatura e tecnologia se dá mais ou menos nos termos em que o próprio Umberto Eco, em sua célebre definição de apocalípticos e integrados, classificou as diferentes atitudes diante da cultura de massa na era tecnológica: de um lado, aqueles que, como Philip Roth, acham que a literatura tal como a conhecemos sucumbirá aos tablets, smartphones e passarinhos azuis; do outro, os que até se entusiasmam com o imperativo digital se sobrepondo ao papel, e ao papel que o papel até hoje desempenhou. Estes últimos dirão, em sua defesa: o que é a literatura senão, literalmente, uma mensagem de texto?

Copiado de: Livros e Pessoas

A PSICOPATOLOGIA DO RELIGIOSO CENTRADA NA IMAGO DEI

Por Paulo Crespolini


Todas as pessoas podem conter estruturas psicóticas e neuróticas que, talvez, nunca se manifestem ao longo da vida. Se a razão confere a normalidade ao indivíduo, a ausência dela designa aquilo que a psicopatologia chama de transtorno mental ou sofrimento psíquico grave . Cabe ao processo de individuação ampliar a consciência, norteando-a pelo fio condutor da normalidade. Alguns teóricos chegam a defender que a resistência a esse “princípio de estabilidade” faz suscitar a loucura.
O mundo do doente mental é assinalado por uma profunda ruptura com o significado de sua existência. Trata-se de uma experiência assustadora, pois junto à doença está à marca indelével da perda da identidade, da integração, do sentido e por fim da própria realidade. Há o encontro de um espaço sem limite e sem forma. Nesse quadro, a pessoa é afligida por uma anormalidade mental “provocada” e “instalada”. Em determinados casos, o sofrimento traumático pode ser um dos responsáveis pelo seu aparecimento.
Assim sendo, surge a psicopatologia como uma ferramenta científica, utilizada para compreender a linguagem representacional da loucura. Sua função está centrada no estudo da natureza da doença mental, entre causas, manifestações e estruturas. A empiria, a elucidação, a sistemática, a desmistificação e a análise personalizada dos casos e fatos são características que marcam o trabalho do psicopatologista.
Junto ao cenário do sofrimento psíquico também está aquela profunda consonância com a atividade religiosa. O estudo empírico reconhece, na religião, não o seu legado apologético, mas, sobretudo, a necessidade de enfocá-la de modo analítico e crítico. Não se trata de defendê-la ou acusá-la, todavia, de examiná-la como um fenômeno semiótico da loucura. Talvez, porque a religião venha operando no mesmo campo da razão, a saber: no comportamento, na afetividade, na linguagem e no pensamento.
Muito mais que articuladora de uma linguagem espiritual, a religião recorre a um discurso antropomórfico de projeção para construir a imagem de Deus no consciente do religioso. Dessa forma, inúmeros comportamentos humanos são vinculados à imagem Divina, como forma de justificar-se moralmente.
A partir do conceito de “pecado original” nasce uma antropologia depreciativa, cujo objetivo é ressaltar a hereditariedade pecaminosa do humano, recaída e inclinada para a prática do mal. A mutação ontológica, da beatitude ao maléfico, provocada pelo pecado, só pode ser salva pela religião. Eis o retorno ao mito paradisíaco perdido no Éden. Nesse contexto, a linguagem do pecado é idealizada como ausência de algo. Uma ideia que se aproxima da loucura, enquanto carência de razão. Quem sabe não haveria uma íntima relação de símbolos na esfera do religioso e do louco, pois nem todo religioso é acometido pela loucura, mas muitos loucos são religiosos.
De qualquer forma, se faz necessário retomar, etimologicamente, aquilo que é genuíno a uma prática saudável de fé. O termo “religião” é proveniente do latim religare, que significa “ligar outra vez”. Portanto, cabe à religião ser doadora de sentido, de consciência ética, de formação humana e de gênese intelectual.  A religião tem um papel social de suma importância, ainda mais se tratando de uma instituição que acompanha todas as etapas da vida do indivíduo: do nascimento à morte.  Por isso, é impossível estudar o transtorno mental do religioso fora daquele cenário que o suscitou.
Vale ainda ressaltar que a religião também possui um viés de alienação e de controle da consciência nos seus partícipes. Mesmo assim, precisamos ir fundo à questão sabendo que o sofrimento psíquico do religioso não está na fachada da religião.
Pelo contrário, consequente à religião está o discurso religioso e por trás do discurso religioso vem a “imagem de Deus” e aqui reside as mais variadas formas da loucura humana. Eis que se apresenta um amontoado de culpas reforçadas, de remorsos continuados e de acusações intermináveis. Não se trata de depressão, mas de uma paranoia em que o religioso se torna vítima de um Deus castigador. Por Ele, é constantemente perseguida, vigiada, ameaçada e punida. Aqui, há a necessidade do sangue derramado para aplacar a tirania do Divino em detrimento ao humano miserável. Sem generalizações, podemos afirmar que em algumas realidades a imagem de Deus foi utilizada no intuito de “torturar” a consciência religiosa do sujeito.
Toda interpretação de religião “como restritiva da realização humana ou como carga externa heterônoma sobre a existência acaba sendo, por isso mesmo, falsa” (Queiruga). Por isso, a religião tem o bonito caminho de não conduzir o indivíduo para fora de si, porém, ao mais profundo encontro consigo e com o sentido da vida!

PAULO CRESPOLINI
Possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2004), atuando nos seguintes temas: história da filosofia moderna, movimento iluminista, crise eclesiológica e racionalismo. Tem pesquisado sobre a filosofia da alteridade a partir da inter-relação entre o pensamento de Emmanuel Lévinas, Jacques Derrida e Martin Buber. Nos últimos anos tem obtido resultados significativos no estudo da filosofia da religião em Queiruga, na experiência do Sagrado e na instituição metafísica e psicológica da atividade religiosa. Na Teologia (2009), a pesquisa está centrada em duas áreas, a saber: sistemática e bíblica; de um modo especial na cristologia, com o Jesus Histórico e o Cristo da Fé e na evolução histórica das Sagradas Escrituras.



Fonte: Recanto das Letras

domingo, 23 de outubro de 2011

Suicidas já foram crianças


Por Patrícia Ortiz




Os pais de João o chamaram estranhando que ainda não havia acordado. A mãe abriu a porta, e sem voz, chorou ao ver o corpo sem vida. O pai ligou para a emergência.
O rapaz não deixou carta. Não demonstrou seus problemas. Não aos seus pais.
O pai chegava em casa toda noite com um doce. Um suborno que inutilmente servia para compensar sua falta de atenção.
A mãe nunca olhou o filho por quem ele era. Sofria demais fugindo do próprio reflexo do espelho. E procurava compensar com toda a atenção e carinho que pudesse dar. Inutilmente.
Pois o menino cresceu sentindo-se isolado do mundo.
A criança se convenceu que era um fardo para os pais. Acreditava que o mundo ficaria melhor sem ele. E por isso fez por merecer.
Nascer e crescer em um mundo que os pais não têm tempo. Todos trabalham, estudam, e lutam em busca de uma vida melhor. Todos sonham em dar o melhor para os filhos. Dão dinheiro, roupas, casa, carro, brinquedos.
João era o que mais ganhava presentes. Possuía todos os brinquedos de seu super-heroi favorito. Aquele relógio com vídeo-game, vídeo, câmera, gravador de voz, diversos botões. O tênis mais divertido da escola. A mochila que todos invejavam.
Disfarçava-se de Batman, homem-aranha, super-homem. Porque não acreditava que sua existência era importante. Os heróis, sim, faziam a diferença.
Não tomava banho, esperando que seus pais gritassem com ele.
De manhã, sua mãe o acordava com um beijo. Seu pai gritava que ele era inútil e fedido. Não servia para nada. E que se vestisse logo, ou atrapalharia o trabalho também.
Ele ia para a escola e gritava com as professoras, os colegas, batia nos amigos. E os professores, colegas, e agora inimigos, gritavam com ele, batiam nele e chamavam os pais. Que iam, e gritavam, batiam, e o colocavam de castigo.
Seu pai não sabia o que fazer com ele. A mãe o abraçava.
E ao ficar sozinho no quarto, chorava escondido. Seus pais o odiavam. Os amigos tornaram-se inimigos. Os professores somente gritavam.
Ele não merecia existir. Ele atrapalhava a vida de todos.
E assim se sentiu durante toda a vida. Ocupou todo o tempo sofrendo, que esqueceu de brincar. não fez amizades. Não aprendeu a se divertir com os colegas. Agredia sem motivos os colegas de escola. Não se apaixonou.
Quem em sã consciência amaria alguém como ele? Que era um problema na vida de todos, impedindo qualquer pessoa de se aproximar.
Quando seu pai dizia que chegaria mais tarde, ele quebrava um vaso em casa. Quando sua mãe ficava presa no serviço, ele batia em um colega.
Quando ficava sozinho em casa, não olhava no espelho. Seu reflexo mostrava o que não queria ver. Uma criança que ao invés de brincar e se divertir. Aprendeu a odiar a própria vida.
Sua mãe, que se sentia mal consigo mesma, agredia quem se aproximasse. Ela também sentia-se feia e julgada, sem mesmo saber o que o outro estava pensando. Reflexo do que ela sentia ao olhar no espelho. A lembrança de quem um dia foi bonita. Comparada ao que via, os anos não foram gentis. O tempo que passa, trazendo com ele grandes rugas que a deprimiam. Sentia-se cada vez mais feia e odiada pelo destino. Buscando pela formula da juventude eterna, que no fundo sabia não existir. Por isso odiava a vida. E sem querer, ensinou seu pequeno filho o mesmo caminho.
O menino não aprendeu a ter forças para lutar, ir atrás do que queria. Nem que as pessoas gostam de quem as trata bem. Que os amigos são amigos por se apoiarem. Que bater e brigar nem sempre é a solução.
Ele não aprendeu que amar é um sentimento de duas vias. Que para ser amado, é necessário merecer o amor. Que a vida trás coisas boas a quem as procura.
E que o ódio é um sentimento que corrói.
Não aguentou o aniversario de dezoito anos. Em que não possuía um amigo para comemorar e o arrastar para uma festa. Uma namorada para trocar um primeiro beijo. Um colega que oferecesse a primeira bebida. Alguém que o levasse para viajar. Não possuía ninguém que mandasse uma mensagem no celular desejando feliz aniversário. Ninguém que se importasse se ele vivia ou não. Nem ele.


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