domingo, 27 de março de 2011

Fraqueza de Deus

Por José Comblin, teólogo nascido na Bélgica, que transvivenciou hoje (27-03-2011), aos 88 anos, em Salvador. Segundo Frei Betto, “uma das cabeças mais lúcidas da Igreja Católica no Brasil”.






Boa parte do ateísmo contemporâneo baseia-se na objeção enunciada com muita força no passado por J. P. Sartre e retomada pelos seus discípulos: “Se Deus existe, eu não sou nada”.
Se existe um Deus onipotente, o que ainda sobra para mim? Essa presença ao meu lado do poder absoluto torna irrisórias todas as minhas ações. Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante. Há muitas maneiras de enunciar o argumento.
A objeção foi formulada desde a Idade Média, mas não conseguiu convencer. A resposta diz que Deus e o homem não se situam no mesmo plano, como duas liberdades em competição.
A resposta não convenceu porque durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana. Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa.
De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre.
A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã.

É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz perceptível, mas não impõe a sua presença.
A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa pára, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus.
Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana.
O hino de Filipenses 2.6-11, núcleo da cristologia paulina, expressa essa fraqueza de Deus. Pois o aniquilamento de Jesus incluía o aniquilamento do Pai: "Esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se a foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2.7-8).
Deus escondeu o seu poder até a ponto de as autoridades de Israel não o reconhecerem. É desta maneira que Deus se dirige às pessoas: sem intimidação, sem poder, na dependência de seres humanos, entregando a própria vida nas mãos de criminosos. Quem dirá que dessa maneira Deus faz violência às pessoas?
Como comentou Levinas, o outro é o desafio da liberdade, a provocação que a desperta. Diante do outro há duas atitudes: examiná-lo para ver em que lê me poderia ser útil ou qual é a ameaça que representa para mim, ou então, perguntar-me o que eu poderia fazer para ajudá-lo.
A liberdade de Deus autolimita-se. Diante da sua criatura, Deus limita sua presença. Deus preferiu antes deixar que crucificassem o seu Filho a intervir para impedir tal justiça. Trata-se de fraqueza voluntária.
É verdade que durante muitos séculos, sobretudo na pregação popular, os pregadores apresentaram uma concepção bem diferente de Deus. Usaram temas e comportamentos da religião popular tradicional: medo diante do trovão, medo da seca e de cataclismos naturais – entendidos como castigos divinos –, medo das doenças recebidas também como castigos e assim por diante.
Era fácil despertar o temor a partir de idéias puramente pagãs ou supersticiosas. Essa pregação de terrorismo religioso podia dar resultados imediatos, levando milhares de pessoas aos sacramentos. A longo prazo, porém, destruíram as bases da credibilidade da Igreja. Hoje a maioria das pessoas deixaram de ter medo do trovão, não sendo mais motivo para temer a Deus, como foi no passado. Naquele tempo achou-se válido o método do temor, todavia hoje recolhe-se os frutos dessa pastoral.
Pensou-se que os povos precisassem temer um Deus forte – e desprezariam um Deus fraco. Tais erros se pagam cedo ou tarde. Estamos pagando hoje esse preço.
Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?
Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.
A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).
Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.

(extraído de "Vocação para Liberdade" - Editora Paulus).

quinta-feira, 24 de março de 2011

Uma homenagem no Dia da Síndrome de Down


Por Carlinhos Veiga, músico

Era janeiro. Eu estava no Treinamento da MPC em BH quando recebi uma ligação do amigo-irmão-companheiro-de-sons Leo Barbosa. Seu filho havia nascido! A esposa Rosinha passava bem! Que notícia fantástica! Uma alegria encheu nosso coração.
Alguns minutos recebi nova ligação do Leo. A pediatra ao examinar o Miguel, o filho recém-nascido, diagnosticou sinais da Síndrome de Down. Ficamos assustados, pois ninguém esperava essa notícia. Em meio à perturbação do inesperado senti no coração a certeza de que o Miguel era um presente dos céus, vindo das mãos de Deus. Por ser totalmente perfeito, o Senhor não daria àquele querido casal um presente equivocado ou imperfeito. O Miguel era o presente perfeito de Deus para o Leo, a Rosinha e todos nós. Não era um acaso, mas fruto do amor divino.
A Síndrome de Down não é doença, como alguns pensam. “A síndrome de Down é um acidente genético, que ocorre ao acaso (?) durante a divisão celular do embrião”, nos informa o site da Fundação Síndrome de Down. Se na célula normal da espécie humana existem 46 cromossomos divididos em 23 pares, o indivíduo com síndrome de Down possui 47 cromossomos, sendo o cromossomo extra ligado ao par 21. É a chamada trissomia do cromossoma 21. Doença é algo que se contrai ou algo contagioso. A SD não é doença, definitivamente!
Mas isso a gente só aprende à medida que convive com essas crianças maravilhosas. O Miguel é um deles. Tem me ensinado muito sobre amor despojado, que nada pede em troca; tem me ensinado sobre preconceito e o erro do julgamento; tem me ensinado sobre solidariedade, na convivência com o Leo e a Rosinha; tem me ensinado sobre o pastorado amoroso de Jesus.
Esse aprendizado é algo que se constrói na convivência diária e vez por outra temos que lidar com o preconceito de uma sociedade movida pelas aparências. Mas temos aprendido muito com esse menino com nome e jeito de Anjo: Miguel.
Na última segunda-feira foi comemorado o Dia da Síndrome de Down. Data escolhida tendo como motivo a trissomia do cromossoma 21, portanto, 21/03. Parabéns a todos mais que “especiais” que fazem a nossa vida mais humana e mais bela. Parabéns a você, querido Miguel.
Aproveito a oportunidade e ofereço a todos a música que fiz para o Miguelzinho, quando tinha um mês de nascido, e que foi gravada no CD “Flor do Cerrado”.



sexta-feira, 18 de março de 2011

A magnanimidade é burra – ou, “magnânimo é mandar à merda”

Por: Juliana Dacoregio, jornalista e escritora

Como você consegue, hein?! Como consegue me ler assim? Enxergar-me; olhar onde poucos olham? Ah já sei. Você olha onde tão poucos olham, porque poucos são os que têm esses olhos de águia, de gata, de coruja. Nós temos. Nós sabemos que os temos. Por isso deveríamos sempre achar o caminho de volta ao cinismo diante dos que nos diminuem. O caminho de volta ao amor-próprio, depois de cada bomba lançada sobre nossa auto-estima.




Eu sei, é difícil mesmo ver o que você enxerga, porque eu mostro muitas coisas que tapam a visão dos incautos. Mas não estamos aqui para deixarmos nossas almas mastigadinhas para que as entendam, não é? Até porque, é o óbvio ululante: os que não querem entender nunca irão entender. Ou entenderão, mas farão questão de destilarem deboche diante de nossas almas nuas e mastigadas. Não conseguindo engolir, cospem. Cospem junto seus venenos, suas dores, suas malícias e frustrações.



Comerei chocolates, sim. Comerei chocolates, procurando neles o meu cinismo perdido, minhas gargalhadas insolentes de desprezo a tudo que não me preenche. Comerei chocolates e lembrarei de textos como este e de pessoas como você. Lembrarei disso e disso e disso e disso. E quando lembrar daquilo, lembrarei do ditado tão popular e tão simples em sua verdade: quem desdenha quer comprar. Querem me comprar, eu sei. Querem me calar, querem me encaixar, querem-me chorando, doente, sofrendo inutilmente por causa de suas mediocridades.



Você tem razão. Eles sabem melhor do que eu administrar os próprios defeitos e os transformam em qualidades e opressão diante de meus olhos grandiosos. Grandiosos sim, porque compreendem tudo, até mesmo aqueles que não compreendem nada.



Combinamos que eu não seria magnânima, não é? Não voltei atrás no acordo, mas, ah essa minha tendência de esquecer tão rápido o que me joga para cima! Ah, essa minha bobagem de flertar com a noção falsa de perdão. Perdão para que? Perdão por que? Para brincar de Cristo? Para conviver com os que me apunhalam pelas costas, com os que me alfinetam, me agridem gratuitamente em suas conversinhas públicas e virtuais? Eu sei. Eu sei, amiga. Eles queriam ser como eu. Queriam minha beleza, queriam minha inteligência, queriam minha ousadia – que faz, de minha própria desgraça, motivo para que muitos me olhem e pensem “ah, então não sou só eu”.



Por que dar ouvidos a eles se eu estou tão mais acima, não é mesmo? E se estou acima é porque sei que minha missão (por mais dolorida que seja) é mostrar que eu sofro. Que eu sofro e rio. Que eu sofro e brindo. Que eu sofro e continuo. Que eu caio trezentas vezes e levanto mil!



Então, a partir de hoje eu prometo: ressuscitarei meu cinismo cheio de mim e modesto, minha egolatria divertida, minhas verdades profundas e bobas. Renascerei das cinzas com meus clichês e minha autenticidade, pois eles são o que tenho para me manter de pé. E pé ante pé, correrei. Quando for preciso, devagar e, quase sempre, andarei. Arrastarei os pés, berrarei na praia, uivarei para a lua, para a grandeza do que sou, para a falibilidade do meu ser.



Continuarei rasgando meus pulsos, mas só para deixar sair deles sangue e flores. Nunca vergonha.



Porque estou no palco para ser aplaudida, mas também para servir de exemplo, de incentivo, de força. E se uns tantos gatos coitados jogarem tomates podres, o que importa? Alguns só tem mesmo sua podridão para dar.







E o post que gerou esse desabafo/libertação foi o seguinte:



Queria saber o que aconteceu contigo, que anda se apequenando diante de toda essa gente besta que sabe melhor que você administrar os próprios defeitos e torná-los qualidades aos teus olhos sempre tão humildes. Nós tínhamos combinado que não seria assim. Tinhamos entrado em um acordo: magnânimo é mandar à merda!



Defeitos, é claro, todo mundo tem. Eu e você temos vários e eles são mais mordazes até do que o sorriso falso da tal gente besta que nos cerca. Mas é preciso um certo cinismo, sabe? Um cinismo assim cheio de si e modesto ao mesmo tempo. De ter certeza, de se achar boa e o mundo inteiro concordar, de boca aberta. Afinal, o mundo todo acaba concordando com o que quer que se diga – taí a gente batendo palma pra babaca sem nem dar por isso, sem nem perceber a idiotice da coisa toda.



Chegando em casa, chora. Esperneia. Come chocolates, pequena.



Mas, diante deles, não abaixe a cabeça. Usa o teu cinismo. Continue assim.



Preste atenção na rua, nos sinais, nas cartas que chegam do correio. Em você.



E magnanimamente, mande o resto à merda.



(Tati Lopatiuk – Elvis Costello Gritou Meu Nome)

Fonte: http://julianadacoregio.opsblog.org/2011/02/22/a-magnanimidade-e-burra-ou-magnanimo-e-mandar-a-merda/

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