segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um cordel para o Gondim



Sou um simples poeta nordestino,
eu não tenho diploma teológico,
não entendo o teor mercadológico
que pra isso me faltam ânsia e tino.
Aprendi a cantar desde menino
escutando a voz doce do carão,
o pipoco estrondoso do trovão,
e a orquestra dos pássaros afinada,
e quero ter uma fé santa, embasada,
com a mente no céu e pés no chão.

Em singelas igrejas eu ouvi
a mensagem profética do Senhor,
a peleja, a justiça e o amor,
e as dores vicárias do Rabi.
Lendo a Bíblia Sagrada eu descobri
que é Jesus o Autor da Salvação
no momento da crucificação
seu suspiro calou milhões de vozes
que ao invés de peitar os seus algozes
concedeu-lhes o bálsamo do perdão.

Na Palavra de Deus está disposto
que o déspota é somente o tentador,
que Deus quer o reinado do Amor
em que tudo é proposto e não imposto.
Nesse ponto, propõe que seja posto
o mais puro papel da probidade,
mas quem pensa que é dono da verdade
não se curva aos apelos do amor.
Eu não creio em um Deus que usa a dor,
mas que doa seu Eu com liberdade.

O exemplo de Cristo me faz ver
que o idílio nem sempre vira fato,
que nem Deus busca dar um ultimato
e que tudo se pode refazer.
Que Deus tem o poder para poder,
mas prefere tecer outro mosaico.
Coronel é modelo já arcaico,
liberdade imprescinde na República
o privado não é a coisa pública,
a nação é cristã, o Estado é laico.

Lá no plano de cima Deus é Rei
e reina sempre entre crentes e ateus.
Uma lei não anula a Lei de Deus,
porém Deus não anula a outra lei.
Deve o mundo tornar-se santa grei,
facção é veneno inconsequente.
A potência do Pai Onipotente
faz chamar o conservo de “amigo”,
Ele sabe quem é ou joio ou trigo
e ser cristão é viver com o diferente.

Deus não ‘tá em um credo de doutrina
nem na Teologia Sistemática,
A Palavra não vive na Gramática,
mas na alma de quem ama e ensina.
Deus está na floresta, na colina,
no riacho, na pétala de uma flor,
n’ arco-íris bonito e multicor,
no forró, no cordel e no bolero,
no altar de um coração sincero,
na loucura da cruz e no amor.

Deus está no mar, na estratosfera,
no vergel, no deserto, na lagoa,
nos poemas escritos por Pessoa,
nos romances profundos de Kundera.
Deus não mora na caixa ou na esfera,
não aceita suborno e nem ‘lobismo’,
repudia o brutal fisiologismo,
mas abraça o braçal (mesmo em suor).
Mesmo estando por dentro, é bem maior
que o meio do tal protestantismo.

É difícil ter garra pra falar
um discurso honesto, justo e sério,
pois os tais seguidores do império
fazem tudo o que podem pra calar.
Como a Cícero, se quer decapitar,
como a Sócrates, desejam dar veneno.
Se mataram Jesus, o Nazareno,
que farão para com seus seguidores?
Quem mais diz que o mundo será flores
não se mexe nem limpa seu terreno.

Quem botou sua mão no santo arado
pode olhar para frente e não pra trás,
quem escuta o gemido dos rivais
se esquece o trabalho dedicado,
quem labora no solo machucado
quer curar esse solo tão doente,
quem não busca um hipócrita sorridente
diz um sim para um pranto verdadeiro,
quem tomou para si o seu madeiro
não tem medo do que vem pela frente.

Esse parco cordel eu fiz, enfim,
como um pássaro singelo que abre o bico.
Apesar de distante eu lhe dedico
a Ricardo Gondim, pois ele, sim,
vem pregando a mensagem de Elohim,
sendo luz numa pátria enegrecida.
Sente dor de ver dor e ver ferida,
mas não fere e prefere buscar cura,
garimpando em escombros a candura
e entre os ossos do chão procura vida.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A fotossíntese da fé e o estranho evangelho hidropônico gospel


Todos nós que um dia passamos pelas séries iniciais da escola temos o ciclo da fotossíntese gravado como tatuagem em nossas lembranças de infância. Pois, mesmo assim, permita-me recordá-lo: fotossíntese é isto.


Resumindo [já que você não acessou o link da Wikipédia mesmo]: Seria a fotossíntese algo além de uma planta usar da luz solar e da água para transformar um gás poluente e perigoso como o gás carbônico em oxigênio essencial para a vida alheia e ainda alimentar a planta com sais minerais presentes no chão, na terra, no húmus? [Sim, o processo está muito simplificado, mas farei uma simples analogia, não um tratado ponto-a-ponto da coisa. Sigamos]

Ora, o que é a caminhada na vida cristã além de uma metáfora metafísica desse surpreendente processo vegetal?

Vejo na jornada da fé cristã [aquela uma proposta pelo Jesus Nazareno] um processo semelhante. Se não é a fé cristã usar de dúvidas, questionamentos, incertezas, terríveis vagos nas páginas do nosso manual da vida para, junto com a luz vinda do Filho do Homem, junto com a água que mata toda a sede, se não é a fé cristã usar tais dúvidas para gerar vida, e vida em abundância, o que mais seria?

Nisso, vejo um grave problema com a atual cultura, ou agricultura, evangélica. Se Jesus foi ao mundo, pisou em terra viva, tomou as dores nossas para si; ou seja, se Jesus nos faz a fotossíntese necessária para vivermos, como rejeitar esse processo? Ou pior, como propor um simulacro substitutivo?

Voltemos às analogias. Já ouviu falar em agricultura hidropônica, ou hidroponia? É um simulacro científico da agricultura em terra, é um experimento científico, controlado e metódico que pretende gerar vida em ambiente esterilizado, livre de germes, bactérias e outros micro-organismos da mesma monta. Pior, é agricultura sem chão, sem terra, sem minhocas e cheiro de mato. É uma coisa estéril, fria, repetitiva, com alfaces de folhas iguais, com tomates todos redondinhos, meigos e de coloração, com moranguinhos docinhos e limpinhos.

Já comeu um tomate hidropônico? Vá à papelaria mais próxima e morda uma farta placa de isopor. O gosto será o mesmo, acredite. A tal agricultura hidropônica cria vegetais de granja, numa metáfora fácil. É um simulacro, é uma reprodução fajuta de algo vivo, bom e agradável.

O que nos leva ao final da metáfora: estão fazendo o mesmo com a fé cristã nas igrejas evangélicas brasileiras. Em vez de uma fotossíntese completa, propõem um evangelho igualmente estéril, sem chão, sem terra, sem húmus; um evangelho limpinho e bonitinho, boas novas de reality show, com um monte de regras e um ser que tudo vê destemperado e louco para, ao menor deslize, nos eliminar da casa e nos mandar ao inferno dos desviados e rebeldes.

Os evangélicos morrem de medo de se contaminar de mundo, de chão, de terra. Querem ser sal diet, que não aumenta a pressão, mas também não salga, não conserva, não afasta a podridão; querem ser luz halogênica, que não de desgasta, não consome energia, mas, em compensação, não arde, não queima, não aquece, não incomoda.

Vivem os evangélicos hoje de máscaras [com todos os trocadilhos possíveis], vivem de luvas cirúrgicas e germicidas, álcool gel e antibióticos enquanto, de agricultores da vida, se tornam cientistas do cultivo suspenso, da cultura esterilizada, da agricultura hidropônica.

Ah, mas é o fim dos vermes, das larvas, das doenças e pragas na lavoura. É o fim do joio misturado ao trigo. Não, não é. Ou melhor, é. Mas, tirando as intempéries, os percalços, os ataques, tiram a força, a resistência, o crescimento vigoroso. Hoje, as igrejas evangélicas geram tomates bobões, babões e bundões. Geram abobrinhas, alfaces sem gosto, frutos sem sabor. Geram um simulacro e, pior, geram em pouca monta simulacros a custa de tempo, esforços e recursos suficientes para grandes lavouras naturais, para verdadeiros alimentos serem produzidos, vivos, sadios e saborosos.

Por fim, sinto pena de ver tanta gente cultivando feijões em algodão e crendo que são ceifeiros, mais pena sinto dos frágeis brotos estéreis, sem vida, sem chão, sem história, sem caminhada. São frutos em estufas, em bolhas de contenção, em redomas de vidro sem contato com nada e sem chance de crescer e se multiplicar. Esqueceram-se das palavras do Rabi: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo (Mateus 13.24).



[texto dedicado a Ricardo Gondim, cujos livros e textos com cheiro de terra e chuva me encheram de dúvidas, tiraram todas as minhas certezas e me levaram a uma fé cristã cristalina]



Tom Fernandes

Fonte: Site do Tom Fernandes

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Brasil: Justiça legaliza imoralidade

Por Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese Anglicana do Recife


Em um país onde o Poder Legislativo é o que menos legisla, mas sim o Poder Executivo através de Medidas Provisórias ou o Poder Judiciário através das suas “interpretações” (este último sem ter sido eleito pelo povo, nem passível de perante ele responder), o Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade dos seus membros, resolveu estender aos homossexuais o instituto das “uniões estáveis”, sem qualquer embasamento nos dispositivos expressos da Constituição Federal ou do Código Civil, mas tendo por base argumentos filosóficos emanados da ideologia secularista que está a destruir os fundamentos da civilização ocidental plasmada pelo Cristianismo.
Mais uma vez é o aparelho do Estado indo de encontro à Nação, sua História, sua Cultura e seus Valores. A imoralidade do homossexualismo – nítido desvio de conduta e enfermidade emocional e espiritual – sempre rejeitada pela Nação, não por preconceitos, mas por conceitos que geram preceitos, recebeu o manto da legalidade, com o objetivo de reforçar a sua legitimidade. A imoralidade foi legalizada. O pecado foi legalizado. A minoria organizada do lobby GLSTB comemora seu momento de “vitória” contra a família. O Brasil se junta aos 10% dos países vanguardistas onde se aprovou tal instituto ou o do próprio “casamento”. O Brasil está de luto. A dignidade da pessoa humana e as leis vigentes isonômicas já eram mais do que suficientes para o exercício da cidadania, o bom funcionamento do Estado Democrático de Direito e a busca do Bem-Comum. O próximo passo será a criminalização dos heterossexuais que não admitem a normalidade do homossexualismo, o atentado à liberdade de expressão e da liberdade de religião, com a PLC 122, ora no Senado da República.
A mídia já vinha, há muito tempo, manipulando a opinião pública, em uma autêntica lavagem cerebral, para quebrar as resistências, e “reeducar” a nação. Os Ministérios Federais, como o da Educação e dos Direitos Humanos também estão a gastar o dinheiro do contribuinte para promover a pederastia.
Os argumentos levantados pelos doutos ministros no dia de hoje devem ser levados às suas consequências lógicas, legalizando as outras “minorias discriminadas”, como os pedófilos e outros tantos ófilos.
Os cidadãos brasileiros de convicções morais baseadas nos valores da fé revelada e nos valores sempre afirmados por nossa Pátria continuarão, com convicção e coragem, a expressar a sua mais veemente condenação a esse momento lamentável, que deslustrou a mais alta corte de justiça do País. Continuarão a pregar a mensagem de perdão de Deus a todos os pecadores e a todos os pecados (e não a promover marchas de orgulho do pecado), bem como a mensagem de arrependimento e de mudança de vida, de libertação das opressões e dos desvios, que ferem a santidade de Deus e o seu projeto para a humanidade. Continuarão a apoiar os que hoje optam pelo comportamento homoerótico e que desejam dele ser curados, bem como aos heróicos terapeutas que se arriscam diante da intolerância das novas manifestações de totalitarismo. Bem nos ensina o apóstolo Pedro que “antes importa obedecer a Deus do que aos homens”, e seguindo o exemplo de Martin Luther King Jr, nos cabe a resistência pacífica (não passiva) e não violenta, a desobediência civil. Nesse momento que vozes proféticas se levantem, pois o respeito ao Poder Judiciário não passa por sua infalibilidade nem pela impossibilidade de dele se discordar e apontar para os seus equívocos, que prejudicam a Nação, e que um dia serão julgados tanto por Deus, quanto pela História.
Ache o aparelho do Estado o que achar, decida o que decidir, nossas Igrejas continuarão a afirmar que Deus criou uma humanidade de machos e fêmeas, que ordenou que o homem se unisse à mulher, e que condena vigorosamente a sodomia.
As consequências do que hoje decidiu na esfera do Estado não atingem a vida interna da Igreja e do Povo de Deus. Continuaremos a afirmar o que a herança judaico-cristã-islâmica tem ensinado por cinco mil anos. Continuaremos a respeitar a memória dos nossos antepassados e a honrar os valores dos nossos costumes e das nossas crenças.
Oremos pelas autoridades da República, para que cessem de fazer o mal e promovam o bem!




Mogi das Cruzes (SP), 5 de maio de 2011,


Fonte: www.dar.og.br

domingo, 1 de maio de 2011

Será

Será que você tem noção de que a distância faz brotar dor em minha alma?
Será que você sabe que seu cheiro me alimenta?
Será que você sabe que meu sono está em seus olhos?
Será que você entende que, se eu lhe visse, meus dias seriam perfeitos?
Será que você consegue, realmente, escutar o meu olhar?
Será que você consegue imaginar a angústia que nasce em mim por não estar com você?
Será que o seu coração sente o que o meu sente?
Será que minha ausência também lhe perturba?
Será que estou me iludindo?
Será que mais uma vez meus sonhos serão convertidos em delírios?
Será que sou bobo?
Será que sou convencido, a ponto de achar-me digno de sua atenção?
Será que um dia eu vou conseguir parar de me preocupar com tantos “serás”?
Será que essas interrogações podem se transformar em pontos finais?

1٥ de maio, às 1h30

Solitude



Me acostumei a estar só. Desde sempre. Lembro-me da minha professora de alfabetização comentando com meu pai que eu não tinha coleguinhas na sala. Anos mais tarde, já adolescente, eu passava os intervalos na biblioteca da escola. Temia os corredores. Joguei pouco, sorri pouco, briguei pouco, amei menos ainda. Eu me achava tão inadequado que, às vezes, não gostava da minha própria companhia.
Quando conheci a mensagem do Evangelho, fui liberto (em parte) dessa autoestima baixa. Entendi que o Verbo se fez carne por amor; que a morte de Cristo foi substitutiva; que nEle estavam não apenas os pecados, mas as enfermidades (do corpo e da alma) e que por meio das Suas feridas nós somos sarados. Tive de aceitar que se o Onipotente se preocupa com a minha existência, eu não posso me desprezar.
No entanto, a consciência evangélica também acentuou meu sentimento de não-pertencer. O “não fazer parte deste mundo” me colocou em uma situação alienígena. Eu via pecado em tudo. Não conseguia enxergar em meu próximo o alvo do amor divino. Não tive condições de amar o meu semelhante porque não amava a mim mesmo o suficiente. Decorei dezenas de versículos, verbetes, jargões, mas o fulgor da Verdade não transparecia em mim.
Frequentei vigílias, cultos, cruzadas, evangelismos, louvores, orações... minhas visitas às igrejas foram marcadas pela invisibilidade. Nesses lugares, quem não faz parte da elite, não é visto. Passei muitas madrugadas de joelhos. Fui “batizado com o Espírito Santo”. Orei muito em línguas. Profetizei. Preguei o Evangelho.
De repente, me vi em uma crise de fé. Mas a Sua mão me ajudou. Hoje, após os cacos terem sido colados, busco uma espiritualidade existencialista. Quero encontrar o Eterno nos mínimos detalhes da vida. Quero que os segundos de alegria superem as noites de lamúrias. Quero que a sensibilidade ao irmão seja maior do que os momentos de reflexão bíblica. Quero que a indignação por causa das injustiças sociais sobrepuje o egocentrismo. Quero encontrar amigos, brincar com o vento, namorar as estrelas, embriagar-me com o vinho dos sonhos.
Também me sinto solitário nessa empreitada. Incompreendido. Como eu queria que entendessem que minhas ideias não são tão perigosas assim... Como eu queria que o som do meu coração entrasse em sintonia com o dos outros... Bobagem minha...

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