segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Da Reforma à Bancada Evangélica

por Jénerson Alves

Dificilmente o dia 31 de outubro é lembrado por causa da Reforma Protestante. Boa parte da população, inclusive evangélica, associa a data à celebração do Halloween. Esse fato não causa espanto, uma vez que as doutrinas bíblicas levantadas pelos reformadores estão cada vez mais distanciadas dos púlpitos, dos lábios e do coração do povo que se autodenomina “de Deus”. O movimento liderado por Martinho Lutero em 1517 era contrário às indulgências, mas atualmente o lobby político, o suborno do dízimo e a fixação fetichista por poder secular têm sido as características preponderantes de uma Igreja que abandonou os passos de Jesus.
Atualmente, assim como no século XVI, as divergências entre a prática dos cristãos e a fé professada são gritantes. Se, no famoso texto da Carta a Diogneto (considerada “a maior joia da literatura cristã primitiva”), os cristãos são comparados à alma do mundo, que, “mesmo vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, (...) testemunham um modo de vida admirável”, infelizmente não é assim que são tratados aqueles que se apresentam como cristãos atualmente, principalmente os que se encontram sob os holofotes da mídia. Basta dar uma olhada na chamada ‘bancada evangélica’ do Congresso Nacional.
Na realidade, a bancada é uma representação de um sem-número de evangélicos cujas práticas são completamente opostas à mensagem de Jesus. Com discursos de ódio, disparam contra todos os que pensam de modo diferente. Para se ter uma ideia, as agressões a membros de comunidades de terreiro estão se proliferando tanto no país que lideranças reivindicaram no Senado a criação de uma CPI para combater a intolerância religiosa. Pasmem. A maioria dos intolerantes é oriunda de igrejas evangélicas, principalmente de linha pentecostal. Não precisa ir muito longe para constatar isso. Grande exemplo de intolerância neste sentido é um vídeo do pastor Lucinho Barreto, que circula na internet, no qual ele narra efusivamente uma ‘aventura’ com adolescentes da igreja que lidera, atrapalhando manifestações dos religiosos de matriz africana. Mesmo sendo um senhor de meia-idade, Lucinho fala como um adolescente de 15 anos e é considerado no meio gospel como uma “referência para a juventude”. Some-se a isso o ódio contra os homossexuais, o fetichismo pelo dinheiro nos cultos da prosperidade, a negação da cultura e o mundanismo da ‘pureza’ sexual. O resultado não poderia ser outro: uma grande massa de alienados que não sabe viver em comunidade.
Historicamente, evangélicos como Robert Kalley lutaram pela laicidade do Estado brasileiro. Mais recentemente, o pastor Lisâneas Maciel, enquanto deputado, lutou pelo fim da ditadura. Atualmente, a ‘bancada evangélica’ segue na contramão do legado histórico e teológico dos evangélicos. É hora de rever o papel da igreja por meio das ciências sociais e buscar um avivamento através da Bíblia, trazendo à tona os cinco solas da Reforma: Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria.

Segundo a Bíblia, quem foi remido pelo Sangue do Cordeiro passa a andar em “novidade de vida”. Assim sendo, o padrão de vida seguido pelo cristão deve glorificar a Deus. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5:17). A Igreja precisa reafirmar seu compromisso de restauradora de veredas. Assim como João Batista, a Igreja precisa preparar a sociedade para a vinda do Messias. Do ponto de vista da participação política, ela tem de engajar-se com os ideais de justiça, paz e amor do Reino de Deus. Quanto ao entendimento, necessita estar cingida do conhecimento de Cristo. Quanto à prática, deve ser amorosa. Afinal de contas, faz-se necessário seguir o exemplo dAquele que não veio julgar o mundo, mas salvar (Jo 12:47). Que Ele nos ilumine.


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