quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mínimo Denominador Comum

por Fabrício Cunha dos Santos


De tantas coisas importantes que aprendi no tempo de convivência com o teólogo e filósofo Ed René Kivitz, um mestre por natureza, a principal de todas elas está numa folha, uma lauda só, só frente, datilografada há muitos anos e xerocada por mim...

Ele ainda era estudante universitário quando, numa reunião entre poucos amigos onde moravam, perto da faculdade, colocaram em pauta a seguinte questão: “qual seria a filosofia de uma igreja relevante”. Com a ajuda do grande filósofo Ariovaldo Ramos, escreveram ali uma lauda com uma filosofia do que seria uma boa proposta de comunidade cristã. Era seu mínimo denominador comum.

Ed René tornou-se pastor de uma grande igreja em São Paulo. Ao longo de seu ministério pastoral, procurou, conheceu, testou várias metodologias de igreja para, 20 anos depois, concluir que era aquela folha rabiscada de forma tão sincera e singela, há tantos anos, o resumo mais coerente de tudo o que procurara e vivenciara enquanto sistemas aplicáveis a uma comunidade. Aquela folha datilografada era a síntese de um sonho. Era tão sincera e leve, quanto densa e expressiva. Permitia que navegassem com liberdade por vários mares, sem perder a direção, aquele núcleo central que os manteria na rota, independente das possíveis intempéries.

Dia desses, revi minha caminhada existencial. Reavaliei a minha fé, solo sobre o qual pisei nos últimos muitos anos de minha vida. Repensei sobre minha vida, a vida ao entorno de mim, sobre as amizades, as decisões, as trajetórias possíveis, olhei, pensei, sorri, chorei, silenciei ao encontrar-me com meu passado, o mais longínquo e o mais recente.

Todos nós precisamos de uma lauda que seja, que nos mantenha vivos e caminhando n’alguma direção. Não que não possamos mudar os planos daquilo que escrevemos em algum momento da vida, mas algumas coisas devem ser tão sólidas, algumas poucas, que nos permitam transitar por terremos mais estranhos, ir e vir no diferente e mudar a direção quando necessário, tendo, na solidez desse mínimo, alguma segurança.

Meu mínimo denominador comum permanece o mesmo:

Tenho um mestre maior chamado Jesus de Nazaré e com Ele aprendi que:

o Toda e cada pessoa tem potencial para ser humana. Cada vez mais humana;

o Nossas relações devem se estabelecer sobre três alicerces, a reciprocidade, a alteridade e a incondicionalidade. Os relacionamentos afetivos e fraternais devem ser recíprocos. Nossa relação com a humanidade de ser de alteridade. E nossa paternidade e maternidade devem ser incondicionais em relação aos seres que gerarmos;

o A sociedade pode subverter a ordem na qual está estabelecida, trocando a competitividade pela solidariedade, o poder do dinheiro pela força do amor, a tendência ao acúmulo pela partilha e o juízo e a maldade pela graça e misericórdia.

Tento me alimentar desses três parágrafos, meu mínimo denominador comum, e seguir adiante. Tudo o mais é supérfluo.

Mas como é difícil.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Professor Reginaldo Melo

por Jénerson Alves

Texto publicado na Coluna Dois Dedos de Prosa, do Jornal Extra de Pernambuco - ed. 625

Ao lado de outros poetas de Caruaru, entrei no apartamento onde o professor Reginaldo Melo está internado há três semanas, em um hospital particular. Ele nos recebeu com alegria, apesar da fragilidade física. Com a voz bem cansada, quase inaudível, um dos primeiros assuntos que ele pediu foi: “Ajudem-me a publicar o cordel sobre o Rio Ipojuca, que já está pronto, só falta ser levado à gráfica”. Coincidentemente, ele estava com uma camisa de um Encontro sobre a questão hídrica que participou em Goiás.
Prof. Reginaldo (centro), ao lado de Espingarda do Cordel (e)
e Jénerson Alves (d)


Durante o encontro no quarto do hospital, ocorrido na última semana, quando Olegário Filho, Nelson Lima, Val Tabosa, Dorge Tabosa, Nerisvaldo Alves e eu o visitamos, comprometemo-nos em procurar os meios para imprimir o cordel sobre o Rio Ipojuca, sim. Além disso, vamos realizar – em nome da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel – um recital apenas com poemas do mestre Reginaldo.

O meio ambiente, a cultura e a sociedade estão entre os temas sobre os quais Reginaldo Melo mais se debruçou ao longo da vida. Por meio dos versos dos seus cordéis, muitas pessoas tiveram a consciência despertada para a coletividade. Ele fez da poesia um ofício quase sacerdotal, “por saber da importância / de ser um educador” (afirmou em uma estrofe).

Entre outros trabalhos de Reginaldo Melo que se encontram na “gaveta”, existe um cordel contando a história do Poder Legislativo. O texto foi escrito sob encomenda da Câmara de Caruaru, com ilustrações do jovem xilogravurista Espingarda do Cordel, que desponta como uma referência da nova geração nessa arte. Tudo está pronto desde o ano passado. A ideia é que o folheto seja impresso e distribuído nas escolas do município. Não tive acesso ao conteúdo, mas por conhecer o autor sei que o cordel consiste em uma verdadeira aula de cidadania, provocando a reflexão e conscientizando os jovens acerca da importância do protagonismo na política. Talvez por isso não seja interesse da atual legislatura viabilizar a impressão e distribuição desse folheto…



No meio dos poetas populares, o professor Reginaldo Melo tem a marca de não se curvar diante de dificuldades, mantendo-se fiel aos seus princípios. Atualmente, ele luta contra o carcinoma escamoso (uma doença cancerígena) e complicações no fígado. Sabemos que ele não vai se curvar diante das enfermidades. Recentemente, foi lançada na internet uma campanha para que ele comprasse um remédio nos Estados Unidos no valor de US$ 2.400. Todavia, sei que existe uma Lei Federal que dispõe acerca da obrigação do SUS em atender pacientes com câncer. Quero aqui provocar as autoridades e órgãos competentes para que a obra e a vida do professor Reginaldo Melo permaneçam servindo de inspiração para as novas gerações, a fim de que o sentimento de coletividade não se perca, fazendo raiar uma nova aurora. Para concluir, deixo uma estrofe em martelo agalopado, escrita por ele: Só teremos o estado de direito / Se lutarmos pela democracia / Praticar e defender cidadania / Não nos resta pensar de outro jeito / Se o ato de votar não for perfeito / E o voto for uma mercadoria / Se deixarmos levar por fantasias / Nosso drama jamais terá conserto Quando o nosso eleitor votar direito / Vamos ver o nascer de um novo dia”.

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