quinta-feira, 17 de março de 2016

SERIA DIFERENTE?

por Marconi Aurélio e Silva, cientista político e jornalista

Em meio aos sucessivos escândalos políticos observados no Brasil, que se baseiam no desenho institucional "possível" de 1988, damo-nos conta que o modelo do presidencialismo de coalizão está saturado. Hoje percebemos que, apesar de termos uma democracia liberal (se considerarmos apenas a possibilidade da competição eleitoral e da escolha direta dos representantes por parte da população como a grande força motriz desse sistema), a decisão sobre o governo não passa pelo crivo direto do povo, entre outras coisas, porque:
1) Vereadores, Deputados Estaduais e Federais, sendo escolhidos pela proporcionalidade, proporcionam-nos legislativos pouco ou nada representativos, porém legitimados (vota-se em alguém para eleger outrem!!).
2) Os partidos políticos não representam bandeiras coletivas de "percepção de partes" do eleitorado e da população sobre o que é melhor pra todos, mas são continuamente utilizados para servir apenas como estrutura de manutenção de espaços de poder a seus "caciques" e associados, ávidos pelas regalias proporcionadas pelo Estado. Daí porque a grita que os Partidos querem o poder pelo poder, para garantir privilégios e benefícios individuais, custeados pela coletividade, não pra servir a causas coletivas.
3) O lobby ou "advocacy" não foi ainda regulamentado no Brasil, o que dá margem para diferentes tipos de práticas por parte dos grupos econômicos ou organizações e movimentos mais bem articulados que, diferentemente da massa de eleitores (pouco esclarecida e desarticulada), consegue atuar com maestria na efetivação de suas agendas e interesses.
4) Além do mais, financiando as campanhas políticas, empresas e setores econômicos terminam tendo benesses e estímulos próprios dos governos eleitos com seu apoio, a exemplo do que aconteceu na última eleição, quando o agronegócio, a construção civil e o setor financeiro fizeram os maiores aportes financeiros às campanhas de Dilma (PT) e de Aécio (PSDB). O que é pior, os 10 maiores doadores de campanha em ambos os casos, representam algo como 60% da arrecadação, um oligopólio econômico bastante influente...
5) Após eleito, raramente o Executivo possui base política de apoio no Legislativo que garanta a governabilidade. Isso quer dizer que o povo apenas indica quem vai participar das negociações e conchavos políticos entre novembro e dezembro, após as eleições, para montar o governo. E aí entra em jogo negociação de ministério, loteamento de espaços com cargos comissionados etc.
6) Desde 1988, nenhum presidente da República foi eleito com a efetiva maioria dos votos, posto que, historicamente, entre 25% e 30% dos votos são "desperdiçados" como brancos, nulos ou abstenções. 50% + 1 dos votos "válidos" desde a eleição de Collor, chega a representar pouco mais de 1/3 da população de eleitores. Daí termos um Executivo também pouco representativo, mas, legitimamente eleito.
7) Além do mais, sabemos que o Judiciário, a partir de um determinado nível hierárquico não é formado levando em conta apenas o mérito e, sim, indicações e escolhas políticas oriundas de outro Poder Republicano.
Dito isto, é até de se estranhar porque tanta surpresa com o resultado operacional de um sistema político extremamente clientelista, pouco coeso e "permitido" por uma população que, em sua maioria, ainda está excluída, em diferentes níveis, mas que também carrega uma cultura de ilícitos e de práticas contínuas de pequenas ou grandes corrupções.
A crise moral, ética e institucional que vivemos hoje no Brasil é um momento precioso para refletirmos o que queremos de fato. Ser um país sério não vai cair com a chuva, nem vai ser fruto de milagre ou trabalho de messias "salvador da pátria"...
A política somos nós, nossas escolhas e atitudes cotidianas!!! Eleger e não participar politicamente de outra forma, ao menos acompanhando a atuação etc. é tão nocivo quanto vender o voto.
Quando um sistema que, em essência, é para tratar do "bem comum" está permeado pela individualidade e pela cultura do "salve-se quem puder", o que podemos esperar senão crises cíclicas que continuam tendo como único objetivo, infelizmente, tirar quem está para colocar que ainda não chegou, ao invés de ser aperfeiçoar e melhorar o sistema?
A questão é simples: investimos seriamente na educação para a cidadania desde a 1a. infância, julgamos e punimos TODOS os desmandos e grupos que destróem nosso patrimônio coletivo a partir do mau uso do poder e das instituições, aperfeiçoamos os instrumentos de transparência e de controle social do poder, participamos com mais tempo e qualidade democrática e renovamos nossas instituições ... ou continuaremos a ter um sistema que induz à corrupção, que gera assimetrias e que impõe sobre o cidadão que o elegeu e acreditou, todos esses desmandos que já estamos acostumados a ver no Brasil.
A inovação democrática disruptiva é essencial nesse momento! Poderia ser a agenda de fronteira de cientistas sociais e de humanidades pelos próximos anos... Um sistema que empodere o cidadão, mas que também o eduque a entender as razões e perspectivas divergentes dos demais; e que, sobretudo, dê a todos a capacidade de superar estas divergências para construir juntos soluções para todos. Precisamos unir-nos, apesar da diversidade!!
Não vejo escuridão nessa crise, apenas oportunidades. Mas, será que estamos mesmo preparados para realizar esse salto civilizacional?



quinta-feira, 3 de março de 2016

Um Mar que vem do Sertão

por Jénerson Alves
(Texto publicado na coluna Dois Dedos de Prosa, do Jornal Extra de Pernambuco)

Ao contrário do que supostamente profetizava Antônio Conselheiro, o sertão não vai virar mar, tendo em vista que já o é. Isso porque nasceu no Alto Sertão do Pajeú, mais precisamente no município de Tuparetama-PE, uma escritora que, até mesmo pelo nome, é um verdadeiro mar de versos. Estou me referindo a Mariana Teles, poetisa, declamadora e concluinte do curso de Direito na Universidade Católica de Pernambuco. Recentemente, ela lançou o livro 'Um Novo Mar de Poesias'. A obra, de produção independente, reúne cerca de seis dezenas de poemas em 201 páginas.

Filha do exímio cantador Valdir Teles e da professora Maria Elza, a garota – de 20 anos de idade – mescla em sua poética a resistência sertaneja com a sensibilidade feminina. No livro, percebe-se a interação entre universos distintos. A começar pela capa, cujo título destaca a palavra 'mar', seguido por uma ilustração que remete à grande porção de águas, mas também apresenta um cacto, símbolo da seca e das grandes porções de terras nordestinas. No interior do livro, há sonetos, motes, décimas, sextilhas, trovas e comentários sobre os mais diversos temas. Tanto o lirismo quanto a crítica social estão presentes na obra, passando pela fé e pela exaltação à terra. É possível encontrar nessas páginas resquícios da guria sertaneja que cresceu ouvindo cantoria e escrevendo versos, mas também da mulher que se forma em Direito e amplifica sua visão de mundo. É possível captar a essência de uma verdadeira amante das palavras, estejam elas na métrica das poesias ou nos artigos das leis.

Na realidade, o que se vê nos versos de Mariana é o espírito do ser humano, que se manifesta em suas mais variadas formas. São resultados de momentos de sensibilidade, instantes-já, captados com a essência semelhante aos improvisos do pai. Entre os trabalhos, pode-se citar o mote 'Do Batente de Pau do casarão', de Dedé Monteiro, glosado por ela com maestria e maturidade, que podem ser percebidos em estrofes como “No alpendre da casa que eu morava / tinha o gosto do doce da poesia. / Fora o terço, a novena, a cantoria, / outra festa por lá ninguém falava. / Quando o véu do poente desbotava, / que o sol apagava o seu clarão, / minha mãe acendia um lampião / e, pra provar que nasci ouvindo rima, / pai cantava um cordel sentado em cima / do batente de pau do casarão”.

No livro, ainda é possível enxergar novos olhares sobre a realidade social, por meio de motes como 'Sem primeiro cobrar EDUCAÇÃO, ninguém vai reduzir 'maioridade'', o qual ela apresentou em 2013, representando do movimento estudantil durante um ato contra a redução da maioridade penal, na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Na glosa, ela questiona: “Será justo cobrar de um infrator / que não teve direito a ter direito? / e é somente reflexo do efeito / de um sistema covarde e opressor [...]”. O Hino Nacional, o centenário de Luiz Gonzaga, a viuvez, a família, o amor e a infância são outros temas abordados nos versos da jovem poetisa. É impossível, neste artigo, ressaltar por completo a grandiosidade da obra de Mariana, até porque a literatura é carregada de plurissignificação. Portanto, meu desejo é apenas impelir o leitor a procurar beber das doces águas do mar de Mariana, cujo leito é o sertão, mas – como ela mesma afirma – trata-se de “um mar em busca do mundo”.

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