quinta-feira, 21 de julho de 2016

Não sei o que falar...

Lembro-me de te ver pelos corredores da faculdade, com um café e um cigarro. Abraçava-te. Trocávamos algumas palavras. Tu sempre dizias que nós deveríamos construir algum artigo científico juntos. Eu concordava. No entanto, terminava me esquivando dessa missão. Eu te achava tão inteligente, tu articulavas as conversas com tantas bases teóricas, com tantas leituras, tantos fundamentos... confesso que eu não me sentia à altura de produzir algum texto acadêmico contigo. 

No fundo, sou só um cordelista, sabes? Sou só um poeta popular...
Sim. Tu sabias disso. Tanto é que me convidaste para recitar alguns poemas em um colégio particular onde trabalhavas. Na verdade, entregaste meu número para a professora organizadora e ela me chamou. Mas a ideia foi tua. Fiquei honrado pela lembrança. Tu ainda filmaste minha participação. 
Prometeste me entregar. Eu nunca tive coragem de cobrar. Sempre te via tão ocupado, tão cheio de atribuições...

Eu queria ter te dito que gostava de te conhecer. Lembro-me da última vez que te vi. Foi tão rápido. Na rua. Nossos cumprimentos foram comuns. Mas te ver promovia alegria em mim. Sempre que estava contigo, eu sabia que estava ao lado de uma pessoa que veio deixar sua marca no mundo. Gente de pensamentos, de propósitos... tua alegria contagiava...

Na realidade, eu te conhecia desde antes da faculdade. De uma fotografia. De uma visita. De uma publicação. Era assim que eu te conhecia. Não tivemos tempo de estreitar laços. Nem precisava. Saber que no mundo havia pessoas iguais a ti já servia. E eu só esperava te ver brilhando. Eu queria aplaudir. Mesmo de longe.

Ainda não consigo entender tua partida prematura. Tu amavas tanto a vida. Eu nunca pensei que tu poderias, em algum momento, não encontrar vida na vida. Eu nunca pensei que tu poderias entrar em desespero. Eu nunca pensei que tu poderias enxergar a tua imagem no retrato da dor.

Creio que a Trindade te abraça com carinho, amor e misericórdia. Peço que a Trindade conforte tua família. E nos conforte também.


Neste momento, fico me perguntando quantos queridos podem não estar na mesma situação em que tu te encontravas... quantas pessoas podem estar desesperadas? Quantos futuros brilhantes podem estar projetando a auto-escuridão? Quantas vozes podem estar querendo se silenciar? Gostaria de ter te dito palavras que te trouxessem esperança. Gostaria de ter sensibilidade para perceber melhor... Desligo a luz do quarto e dialogo com meu silêncio. Gostaria de falar algo... mas, não sei o que falar.

“Cum dixerint pax...”

Foto copiada do site http://www.rainbowschools.ca/

por Jénerson Alves


Quando disserem: “há paz”, mas os jovens ainda forem extremamente mal-educados, sem significados, sem sonhos, sem altruísmo, o mundo permanecerá sendo um barril de pólvora, pronto para explodir a qualquer momento.

Quando disserem: “há paz”, mas os idosos ainda forem lançados em um calabouço social, de modo que os cabelos brancos deixem de representar respeito e serenidade e passem a ser coisa alguma, esta paz dita será apenas um engodo, uma falácia, uma fantasia.

Quando disserem: “há paz”, mas as crianças ainda forem desorientadas, deseducadas, desestimuladas, o que haverá será apenas um estado de letargia, de esvaziamento, de desesperança.

Quando disserem: “há paz”, mas a alma das pessoas ainda não for o foco das ações dos líderes – de qualquer instância, seja ela municipal, estadual, federal, institucional, sindical, ou qualquer outra –, o que haverá tão-somente será calmaria, massificação, controle.

Quando disserem: “há paz”, mas a categorização das pessoas ainda permanecer, de modo que o ser humano acredite ser capaz de distinguir quem é quem – ou como se as configurações étnicas, estéticas, religiosas, filosóficas, políticas ou familiares fossem conceitos fechados que delimitam os espíritos –, o que haverá não passará de tola tolerância.

Quando disserem: “há paz”, mas os corações ainda estiverem militarizados com ódio, rancor, preconceito, autossuficiência, egoísmo, soberba e ganância, as armas exteriores permanecerão sendo representações materiais de armas interiores, venenos que matam sutilmente, quebrando e rachando relações externas e internas, desumanizando o alvo e o cerne.


Quando disserem: “há paz”, mas essa paz não vir de dentro para fora, não for produto da consciência, não nascer da essência e do espírito, não exceder todo entendimento, todo contexto, toda particularidade da existência, essa paz não será verdadeira. E se precipitará repentina destruição... Ainda muitas águas correrão por muitas pontes, e o que virá ainda não será o que se espera. Só haverá paz quando for possível enxergar além do véu. Mas, há quem queira enxergar?

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