quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Entrevista com o senador Cristovam Buarque (PDT-DF)

Ainda trabalhando no Jornal Extra de Pernambuco, tive a oportunidade de entrevistar o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), quando da sua passagem por Caruaru, em 25 de setembro de 2015. A entrevista foi publicada no seminário e agora eu a reproduzo aqui. Confiram:



JORNAL EXTRA – Senador, ontem (24 de setembro), o senhor esteve no Teatro Santa Isabel, em Recife, assistindo ao espetáculo ‘Auto das Sete Luas de Barro’ e sendo homenageado. Que avaliação faz daquele momento?
Crédito da foto: Arnaldo Felix/Divulgação
CRISTOVAM BUARQUE – Para mim, foi muito emocionante, porque o Teatro Santa Isabel é muito marcante em minha vida. Eu cresci indo para o Teatro Santa Isabel. Lembro-me que foi lá a primeira vez que fui a um concerto de música. Era um concerto de piano. Eu tinha 15 anos. Marcou-me muito porque eu fui sozinho, eu estava aprendendo a andar sozinho à noite no centro do Recife. Depois, fui muitas vezes ao Teatro Santa Isabel, quando estudante. O que me tocou muito ontem (dia 24.09) foi que eu recebi um diploma e uma medalha, dados pela deputada estadual Raquel Lyra (PSB). Eu lembrei que 49 anos atrás eu recebi ali o diploma de engenheiro. Minha formatura foi no Teatro Santa Isabel. Porém, naquele momento, não me deixaram levar o diploma, pois eu era o orador da turma e fui muito duro. Era o regime militar. Então, a maneira de me punir foi não me dar o diploma. Só consegui me formar 10 dias depois, entrando na Justiça.
Além disso, o que foi formidável foi assistir à peça de teatro sobre o Vitalino. Foi uma das peças mais belas que assisti em muitos anos. Gostei demais. Grandes atores, uma bela história, uma iluminação perfeita, música bonita e um personagem dos mais expressivos da história do Brasil, sobretudo na cultura, que foi Vitalino.

JORNAL EXTRA – E hoje (25.09) o senhor esteve em Toritama. O que o motivou a fazer essa viagem?
CRISTOVAM BUARQUE – Para mim, hoje foi especial. Eu vim a Toritama pela segunda vez. Há exatamente 10 anos eu estive aqui. Em 2005, no começo do ano, o presidente Lula veio a Toritama e, quando ele desceu do helicóptero, um grupo de garotos veio para falar com ele. O jornal Folha de S. Paulo tirou uma foto do presidente agachado, conversando com esses meninos, sem camisa, pobres. Naquela época, eu vim ver quem eram aqueles meninos. Conversei com eles, com os pais, com a professora, visitei a escola. Escrevi uma carta ao Lula, dizendo quem eram aqueles meninos – que pela foto ninguém sabe quem é. Eu disse, na carta, que a situação desses meninos era trágica, mas ele não era culpado, pois havia chegado agora na presidência, mas se em dez anos isso não mudasse, a culpa seria dele. Eu fui vê-los.

JORNAL EXTRA – O senhor consegui identificá-los?
CRISTOVAM BUARQUE – Todos eles.  Só não encontrei um, pois estava ‘fazendo um bico’ fora. Novamente, conversei com os pais, com a professora, visitei a escola.
JORNAL EXTRA – E como eles estão?
CRISTOVAM BUARQUE – Nada mudou. Nenhum desses meninos teve um rumo na vida. Todos abandonaram a escola antes do final do Ensino Fundamental. Nenhum deles tem um emprego satisfatório. A menina, hoje com 16 anos, já tem filho. Eu estive com ela, carreguei o filho dela nos braços. Vou escrever uma carta, mostrando que estes dez anos, para esta geração, foram dez anos perdidos.

JORNAL EXTRA – Mas este ano surgiu o slogan ‘Brasil, Pátria Educadora’...
CRISTOVAM BUARQUE – O que eu vi, desmoraliza completamente o slogan ‘Pátria Educadora’. Totalmente. Então, fico pensando: “este menininho que carreguei no braço, filho da menina: qual o futuro dele?” Se nós não tomarmos algumas decisões muito rápidas, o futuro dele vai ser igual ao da mãe. Ou seja, sem futuro.
Eles trabalham em confecções, ganhando uma ninharia, a mãe recebe Bolsa Família, que não dá quase para nada. É trágica a situação. Não foi feito praticamente nada nesses últimos dez anos.

JORNAL EXTRA – O senhor mencionou a questão da confecção. Os políticos jactam-se do Polo Têxtil, por ser positivo economicamente. Porém, o senhor concorda que há um custo social por trás dele?
CRISTOVAM BUARQUE – É tão positivo, do ponto de vista econômico, quanto o Bolsa Família. Ou seja, é um positivo ‘desse tamanhinho’ (fazendo sinal com os dedos, simbolizando ‘pouca coisa’). Lamentavelmente, nós nos satisfazemos com pouco. O Brasil é melhor com o Bolsa Família do que sem ele, mas, se daqui a dez anos ainda precisarmos do Bolsa Família, é uma tragédia histórica. O Brasil não tem conseguido fazer que as pessoas sobrevivam com dignidade. A casa que visitei dessa menina, cuja mãe recebe Bolsa Família, é de absoluta penúria.  E como não ser penúria, com R$ 200 por mês?
Mesma coisa é o programa das confecções. É claro que é melhor com elas do que sem elas. Eles estariam passando fome e não estão. Porém, é um trabalho manual, sem a menor qualificação, que dá um salário um pouco maior do que um salário mínimo, mas com uma vulnerabilidade muito grande. Basta amanhã os chineses conseguirem exportar jeans barato para cá, que acaba tudo aquilo. Não tem como sobreviver. Não é um emprego permanente. Eles não têm carteira profissional assinada, não têm 13º salário ou férias.
Aí você me diz: “e vai fazer o quê?” Se aqueles garotos da foto, e tantos outros, tivessem recebido uma boa educação, eles estariam muito melhores do que no trabalho das facções. Podiam estar fazendo moda, podiam estar criando.

JORNAL EXTRA – O memorável educador Rubem Alves dizia que as escolas, muitas vezes, são verdadeiras gaiolas. É o tipo de Educação implementado que não responde às demandas da sociedade?
CRISTOVAM BUARQUE – Veja bem. O Rubem Alves é correto na crítica que faz, mas é a crítica do educador, aquele que pensa a sala de aula. Mas a minha crítica é do educacionista, o que pensa todas as salas de aula. Eu estou de acordo com ele, que a sala de aula como é hoje termina sendo uma gaiola. Mas, sem a sala de aula, a gente tem o Mediterrâneo afogando as pessoas, como está afogando os sírios agora. Uma escola-gaiola é melhor do que nenhuma. Na escola-gaiola, é possível abrir a porta e deixar o pássaro voar. A não-escola é uma gaiola sem porta, uma prisão definitiva.

JORNAL EXTRA – Então, universalizar o acesso ainda é um desafio no Brasil?

CRISTOVAM BUARQUE – O acesso à matrícula, hoje, é quase 100%. Mas tem de ser o acesso não só à matrícula, mas também à frequência (uns se matriculam, mas não frequentam), à assistência (outros frequentam, mas ficam ali brincando, ou ‘fazendo bagunça’, como chamam), e à permanência. Só 40% dos alunos chegam ao final do Ensino Médio. E essa permanência tem de ser com aprendizado (aí não chega a 20% dos adolescentes brasileiros). O Brasil diz que universalizou a Educação, mas apenas universalizou o acesso à matrícula.

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