Dentre as personagens do anime ‘Cavaleiros do Zodíaco’, Shiryu de Dragão é muito admirado. Sério, calmo, justo, honrado e leal, foi treinado pelo Mestre Ancião, na China.
Uma das suas marcas é a resiliência ao enfrentar o sofrimento, chegando a realizar grandes sacrifícios para proteger os outros. Ao longo da série, ele chega a perder a visão em um duelo, para bloquear o escudo petrificante do oponente e, assim, eliminá-lo, por amor à sua missão de vida.
Shiryu mostra que a dor pode ser uma etapa para o crescimento ético, altruísta e humano. Desta forma, mostrando-nos que é possível lidar com o drama do sofrimento de forma honrada e elevada: não é um padecimento inócuo, é uma doação por algo maior.
Afinal, o sofrimento é universal. Tema recorrente nas artes – presente de Homero a Carlos Drummond, de Graciliano Ramos a Marcelino Freire; está na Pietà de Michelangelo ao Velho Triste de Van Gogh; está na música de Beethoven ao sertanejo universitário.
Também o sofrimento está na Bíblia, desde os tempos de Adão, passando por Jó, chegando até Cristo. O autor de Hebreus testifica: “E na verdade sendo Filho de Deus, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (5:8). Crer em um Deus que conhece a dor nos ajuda a ressignificar as agruras.
É claro que a dor divina é distinta da humana, como S. Bernardo de Claraval declarou: “impassibilis est Deus sed non incompassibilis” (Deus mesmo não pode sofrer, mas Ele pode ter compaixão). Nosso sofrimento advém da carência; o dEle advém do amor (que tudo sofre).
É o escândalo da cruz, incompreensível para os gregos, estoicos e gnósticos, mas assim sintetizado pelo teólogo luterano Jürgen Moltmann: “Se Deus é capaz de amar outras coisas, então ele mesmo se abre ao sofrimento, que lhe confere o amor em relação aos outros, e mesmo assim permanece acima do sofrimento graças ao poder de seu amor”.