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sexta-feira, 24 de março de 2023

O bafo do Tempo - por Jénerson Alves

 



Pode não parecer, mas eu tenho um ‘intrigado’. Sim, um ‘sujeito’ do qual não quero ver a face (se bem que nunca a vi) e sinto um certo asco apenas em ouvir o seu nome. Para não deixar minha meia-dúzia de leitores inquieta, vou logo revelando: esse meu ‘intrigado’ é o Tempo. Não quero vê-lo, tampouco conversar com ele. Se tal criatura sentar-se à minha frente, não o chamarei para tomar um café.


Infelizmente, sinto que enfrentá-lo é uma luta inglória. Ontem mesmo tentei burlá-lo. E o que fiz? Algo simples. Liguei a televisão e programei a exibição de um filme que eu costumava assistir na Sessão da Tarde. Exatamente como fazia quando voltava da escola há alguns anos, preparei o leite com Nescau e as bolachas Maria. Queria sentir o gosto da infância nesses elementos.


“Que imbecil!”


Foi essa a exclamação que ouvi do Tempo, quando ele me avistou naquela circunstância. Chega pude sentir o bafo dele zombando na minha cara. Só não pude vê-lo – e já não tenho certeza se isso foi porque o Tempo é invisível ou se foi por causa do astigmatismo…


Enquanto o Tempo zombava de mim, fui subitamente abraçado por uma senhora. Repeti Camões: “Que me quereis, perpétuas saudades?”. Poderia uma lágrima ter caído da minha face, mas acho que essa fonte está meio seca (ou só meio cheia…).


Texto: Jénerson Alves

Imagem: Detalhe de ‘A persistência da memória’, de Salvador Dalí


quarta-feira, 24 de junho de 2020

São João


São João

Pela tradição cristã, no dia 24 de junho é celebrado o nascimento de João, o Batista, que teria sido primo de Jesus.

Pelos relatos sagrados, o seu nome foi dado pelo próprio Senhor Deus e anunciado ao seu pai, Zacarias, por um anjo (Lc 1:13). Ainda no ventre materno, João alegrou-se com a visita de Maria à sua mãe, Isabel.

Seu nascimento foi motivo de alegria e cântico para seus pais, de modo que “a mão do Senhor estava sobre ele” (Lc 1:66).

Mesmo sendo filho de sacerdote, cresceu nos desertos, onde robustecia seu espírito.
 



Já crescido, alimentava-se de mel silvestre e gafanhotos (não há certeza se o termo designa insetos ou um tipo de semente).

Sobre João, o Senhor Jesus proferiu aforismos memoráveis, como “entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior do que João, o Batista”.

Sobre Jesus, o Precursor testemunhou a mais solene declaração, reconhecendo o Senhor como eixo de todo o Universo, ao afirmar: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29).

Jénerson Alves






sábado, 30 de novembro de 2019

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Serra dos Cavalos é um paraíso natural e paisagístico, um pouco de Mata Atlântica em pleno agreste pernambucano.

Toda a beleza de sua fauna e flora é contada neste cordel de Jénerson Alves, um excelente material para seu deleite e também para ser trabalhado em sala de aula!

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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Apeirokalia


Do grego, a palavra ‘apeirokalia’ significa “falta de experiência das coisas mais belas”. A partir deste conceito, compreende-se que o sujeito que não tem acesso a experiências interiores que despertem o desejo pelo Belo, pelo Bem e pelo Verdadeiro durante a sua formação, jamais alcançará o horizonte de consciência dos sábios.

A privação às coisas mais belas predomina em nosso país. Desconhecemos biografias de nossos ancestrais – ou, quando conhecemos, são enfatizados aspectos pouco louváveis de suas personalidades. As imagens identitárias do nosso povo são colocadas a baixo. Esculturas, construções, edificações, pinturas são pouco apresentadas. Até a nossa língua tem sido violada com o distanciamento do vernáculo e do seu significado.  A música real tem perdido espaço para séries de ritmos abomináveis.

Este problema perpassa por uma distorção da cosmovisão sobre o próprio ser humano. Hedonista, egocêntrico e materialista, o homem moderno busca simplesmente o seu bem-estar. Esta postura é diametralmente oposta à dos filósofos da Antiguidade e da Idade Média, que buscavam a virtude.

Para o filósofo alemão Eric Voegelin, a terrestrialização da transcendência humana constitui-se em um sintoma da decadência do intelecto. Em outras palavras, o homem contemporâneo é o ‘imbecil’, ou o ‘estulto’. Voegelin recorda que, na concepção grega, o homem é considerado um ser racional (teomórfico) e, na israelita, um ser pneumático (espiritual). “Já que é precisamente essa participação no divino, esse ser teomórfico, que constitui essencialmente o homem, a desdivinização é sempre seguida de uma desumanização”.

Ora, entendendo que a ‘apeirokalia’ é a ausência de experiência com as coisas mais belas, é possível inferir que a maneira de sair desta redoma é vivenciar experiências com as coisas mais belas. Para tanto, é mister entrar em contato com as mais elevadas obras da humanidade, seja na pintura, na música, na literatura, no teatro (ou cinema). Dostoiévski já afirmou: “A Beleza salvará o mundo”.

Convém salientar que a Beleza trata-se de uma realidade objetiva. Existem o Belo e o feio. Existem a virtude e o vício. Existem o Bom e o ruim. Existem a Verdade e a mentira. Urge reconhecer que existem tais diferenças. Semelhantemente, urge discerni-las. E é preciso distinguir quais são os artistas que exaltam o belo, o bom e o verdadeiro e quais os desprezam.

Com base nos relatos bíblicos, enquanto o Senhor Deus criava o mundo – no ano 4963 a.C. –, via que era tudo “muito bom”. Há no grego a palavra ‘kalokagathía’, que significa ‘beleza-bondade’. É a partir desta partícula divina presente nos artistas que a arte deve ser edificada. A verdadeira Beleza está relacionada à vida de forma plena, tocando no espírito e não instinto.

Vale ressoar as palavras do papa João Paulo II, na Carta Aos Artistas, datada de 04 de abril de 1999: “(...) desejo a todos vós, artistas caríssimos, que sejais abençoados, com particular intensidade, por essas inspirações criativas. A beleza, que transmitíreis às gerações futuras, seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única atitude condigna”.


Jénerson Alves

Praia ao luar

  Certamente Caspar David Friedrich é o nome mais famoso do romantismo alemão. Nascido no dia 05 de setembro de 1774 na cidade de Greifswald...