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sexta-feira, 24 de março de 2023

O bafo do Tempo - por Jénerson Alves

 



Pode não parecer, mas eu tenho um ‘intrigado’. Sim, um ‘sujeito’ do qual não quero ver a face (se bem que nunca a vi) e sinto um certo asco apenas em ouvir o seu nome. Para não deixar minha meia-dúzia de leitores inquieta, vou logo revelando: esse meu ‘intrigado’ é o Tempo. Não quero vê-lo, tampouco conversar com ele. Se tal criatura sentar-se à minha frente, não o chamarei para tomar um café.


Infelizmente, sinto que enfrentá-lo é uma luta inglória. Ontem mesmo tentei burlá-lo. E o que fiz? Algo simples. Liguei a televisão e programei a exibição de um filme que eu costumava assistir na Sessão da Tarde. Exatamente como fazia quando voltava da escola há alguns anos, preparei o leite com Nescau e as bolachas Maria. Queria sentir o gosto da infância nesses elementos.


“Que imbecil!”


Foi essa a exclamação que ouvi do Tempo, quando ele me avistou naquela circunstância. Chega pude sentir o bafo dele zombando na minha cara. Só não pude vê-lo – e já não tenho certeza se isso foi porque o Tempo é invisível ou se foi por causa do astigmatismo…


Enquanto o Tempo zombava de mim, fui subitamente abraçado por uma senhora. Repeti Camões: “Que me quereis, perpétuas saudades?”. Poderia uma lágrima ter caído da minha face, mas acho que essa fonte está meio seca (ou só meio cheia…).


Texto: Jénerson Alves

Imagem: Detalhe de ‘A persistência da memória’, de Salvador Dalí


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

“Como eu amo esta criança!” - por Jénerson Alves

 


Os olhos da jovem mãe brilhavam enquanto os dedos percorriam carinhosamente o álbum de fotografias. Ela estava em casa; o garoto, na escolinha do bairro. Enquanto se detinha em cada foto do filho, os lábios balbuciavam belas frases que jorravam do seu coração. Em dado momento, simplesmente exclamou: “Como eu amo esta criança!”


A fala da mulher soou como uma declaração angélica. Talvez porque o silêncio não consiga conter um coração que ama. Quem sabe toda mãe tenha um pouco de Maria Imaculada, e em cada bebê exista um pouco de Jesus, de modo que o Eterno encarna esperança na humanidade.


Certamente, o filho daquela jovem mulher não imagina as declarações de amor que sua mãe o dedica à distância. Sem dúvida, porém, ele o sabe. Quem à distância ama, muito mais expressa amor quando está perto. O filho que esteve dentro – no ventre – por nove meses, permanece dentro – no coração – eternamente.


Neste mundo em que o valor da vida vem perdendo o significado, vemos cenas lastimáveis de celebrações à morte. Defensores do indefensável vibram com o desvanecer de vidas intrauterinas. Em contraste à perversidade, o amor de uma mãe pelo seu filho se consolida como o mais belo depoimento de vida. A voz de uma mãe amorosa ecoa como um cântico indicando que é possível manter acesas fagulhas de esperança na humanidade.


Texto: Jénerson Alves

Imagem: Young Mother, de Renoir



terça-feira, 2 de novembro de 2021

A estranha visita – por Jénerson Alves

 


Mais cedo ou mais tarde, todos haveremos de receber uma estranha visita nos umbrais.


É a mesma visita que o eu-lírico de ‘O Corvo’ recebeu naquela fatídica meia-noite agreste. E repetia incessantemente o som ‘Nunca mais’...


A mesma senhora “tan blanca” da cantiga medieval “El enamorado y la muerte”. E, perante o rosto pálido da amada, ouve o som de quem está a buscá-lo...


Sim, aquela representada com capuz e foice. Sempre misteriosa.


Ela chama, e todos haveremos de atendê-la.


A diferença é como atendê-la-emos.


Uns recebem-na como Ivan Ilitch, desconfiados que não viveram a vida que deveria ser vivida.


Eu gostaria de recebê-la sorrindo, ciente de que, ao fechar os olhos nesta terra, abri-los-ei diante do Eterno.


Para tanto, ouço como em um sussurro as palavras de S. Tomás de Kempis: “Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã?”



Texto: Jénerson Alves

Imagem: Morte do Avarento, de Hieronymus Bosch


Praia ao luar

  Certamente Caspar David Friedrich é o nome mais famoso do romantismo alemão. Nascido no dia 05 de setembro de 1774 na cidade de Greifswald...