por Marconi Aurélio e Silva, cientista político e jornalista
Em meio aos sucessivos escândalos políticos observados no
Brasil, que se baseiam no desenho institucional "possível"
de 1988, damo-nos conta que o modelo do presidencialismo de coalizão
está saturado. Hoje percebemos que, apesar de termos uma democracia
liberal (se considerarmos apenas a possibilidade da competição
eleitoral e da escolha direta dos representantes por parte da
população como a grande força motriz desse sistema), a decisão
sobre o governo não passa pelo crivo direto do povo, entre outras
coisas, porque:
1) Vereadores, Deputados Estaduais e Federais, sendo escolhidos
pela proporcionalidade, proporcionam-nos legislativos pouco ou nada
representativos, porém legitimados (vota-se em alguém para eleger
outrem!!).
2) Os partidos políticos não representam bandeiras coletivas de
"percepção de partes" do eleitorado e da população
sobre o que é melhor pra todos, mas são continuamente utilizados
para servir apenas como estrutura de manutenção de espaços de
poder a seus "caciques" e associados, ávidos pelas
regalias proporcionadas pelo Estado. Daí porque a grita que os
Partidos querem o poder pelo poder, para garantir privilégios e
benefícios individuais, custeados pela coletividade, não pra servir
a causas coletivas.
3) O lobby ou "advocacy" não foi ainda regulamentado no
Brasil, o que dá margem para diferentes tipos de práticas por parte
dos grupos econômicos ou organizações e movimentos mais bem
articulados que, diferentemente da massa de eleitores (pouco
esclarecida e desarticulada), consegue atuar com maestria na
efetivação de suas agendas e interesses.
4) Além do mais, financiando as campanhas políticas, empresas e
setores econômicos terminam tendo benesses e estímulos próprios
dos governos eleitos com seu apoio, a exemplo do que aconteceu na
última eleição, quando o agronegócio, a construção civil e o
setor financeiro fizeram os maiores aportes financeiros às campanhas
de Dilma (PT) e de Aécio (PSDB). O que é pior, os 10 maiores
doadores de campanha em ambos os casos, representam algo como 60% da
arrecadação, um oligopólio econômico bastante influente...
5) Após eleito, raramente o Executivo possui base política de
apoio no Legislativo que garanta a governabilidade. Isso quer dizer
que o povo apenas indica quem vai participar das negociações e
conchavos políticos entre novembro e dezembro, após as eleições,
para montar o governo. E aí entra em jogo negociação de
ministério, loteamento de espaços com cargos comissionados etc.
6) Desde 1988, nenhum presidente da República foi eleito com a
efetiva maioria dos votos, posto que, historicamente, entre 25% e 30%
dos votos são "desperdiçados" como brancos, nulos ou
abstenções. 50% + 1 dos votos "válidos" desde a eleição
de Collor, chega a representar pouco mais de 1/3 da população de
eleitores. Daí termos um Executivo também pouco representativo,
mas, legitimamente eleito.
7) Além do mais, sabemos que o Judiciário, a partir de um
determinado nível hierárquico não é formado levando em conta
apenas o mérito e, sim, indicações e escolhas políticas oriundas
de outro Poder Republicano.
Dito isto, é até de se estranhar porque tanta surpresa com o
resultado operacional de um sistema político extremamente
clientelista, pouco coeso e "permitido" por uma população
que, em sua maioria, ainda está excluída, em diferentes níveis,
mas que também carrega uma cultura de ilícitos e de práticas
contínuas de pequenas ou grandes corrupções.
A crise moral, ética e institucional que vivemos hoje no Brasil é
um momento precioso para refletirmos o que queremos de fato. Ser um
país sério não vai cair com a chuva, nem vai ser fruto de milagre
ou trabalho de messias "salvador da pátria"...
A política somos nós, nossas escolhas e atitudes cotidianas!!!
Eleger e não participar politicamente de outra forma, ao menos
acompanhando a atuação etc. é tão nocivo quanto vender o voto.
Quando um sistema que, em essência, é para tratar do "bem
comum" está permeado pela individualidade e pela cultura do
"salve-se quem puder", o que podemos esperar senão crises
cíclicas que continuam tendo como único objetivo, infelizmente,
tirar quem está para colocar que ainda não chegou, ao invés de ser
aperfeiçoar e melhorar o sistema?
A questão é simples: investimos seriamente na educação para a
cidadania desde a 1a. infância, julgamos e punimos TODOS os
desmandos e grupos que destróem nosso patrimônio coletivo a partir
do mau uso do poder e das instituições, aperfeiçoamos os
instrumentos de transparência e de controle social do poder,
participamos com mais tempo e qualidade democrática e renovamos
nossas instituições ... ou continuaremos a ter um sistema que induz
à corrupção, que gera assimetrias e que impõe sobre o cidadão
que o elegeu e acreditou, todos esses desmandos que já estamos
acostumados a ver no Brasil.
A inovação democrática disruptiva é essencial nesse momento!
Poderia ser a agenda de fronteira de cientistas sociais e de
humanidades pelos próximos anos... Um sistema que empodere o
cidadão, mas que também o eduque a entender as razões e
perspectivas divergentes dos demais; e que, sobretudo, dê a todos a
capacidade de superar estas divergências para construir juntos
soluções para todos. Precisamos unir-nos, apesar da diversidade!!
Não vejo escuridão nessa crise, apenas oportunidades. Mas, será
que estamos mesmo preparados para realizar esse salto civilizacional?
quinta-feira, 17 de março de 2016
quinta-feira, 3 de março de 2016
Um Mar que vem do Sertão
por Jénerson Alves
(Texto publicado na coluna Dois Dedos de Prosa, do Jornal Extra de Pernambuco)
Ao contrário do que supostamente profetizava Antônio Conselheiro, o sertão não vai virar mar, tendo em vista que já o é. Isso porque nasceu no Alto Sertão do Pajeú, mais precisamente no município de Tuparetama-PE, uma escritora que, até mesmo pelo nome, é um verdadeiro mar de versos. Estou me referindo a Mariana Teles, poetisa, declamadora e concluinte do curso de Direito na Universidade Católica de Pernambuco. Recentemente, ela lançou o livro 'Um Novo Mar de Poesias'. A obra, de produção independente, reúne cerca de seis dezenas de poemas em 201 páginas.
Filha do exímio cantador Valdir Teles e da professora Maria Elza, a garota – de 20 anos de idade – mescla em sua poética a resistência sertaneja com a sensibilidade feminina. No livro, percebe-se a interação entre universos distintos. A começar pela capa, cujo título destaca a palavra 'mar', seguido por uma ilustração que remete à grande porção de águas, mas também apresenta um cacto, símbolo da seca e das grandes porções de terras nordestinas. No interior do livro, há sonetos, motes, décimas, sextilhas, trovas e comentários sobre os mais diversos temas. Tanto o lirismo quanto a crítica social estão presentes na obra, passando pela fé e pela exaltação à terra. É possível encontrar nessas páginas resquícios da guria sertaneja que cresceu ouvindo cantoria e escrevendo versos, mas também da mulher que se forma em Direito e amplifica sua visão de mundo. É possível captar a essência de uma verdadeira amante das palavras, estejam elas na métrica das poesias ou nos artigos das leis.
Na realidade, o que se vê nos versos de Mariana é o espírito do ser humano, que se manifesta em suas mais variadas formas. São resultados de momentos de sensibilidade, instantes-já, captados com a essência semelhante aos improvisos do pai. Entre os trabalhos, pode-se citar o mote 'Do Batente de Pau do casarão', de Dedé Monteiro, glosado por ela com maestria e maturidade, que podem ser percebidos em estrofes como “No alpendre da casa que eu morava / tinha o gosto do doce da poesia. / Fora o terço, a novena, a cantoria, / outra festa por lá ninguém falava. / Quando o véu do poente desbotava, / que o sol apagava o seu clarão, / minha mãe acendia um lampião / e, pra provar que nasci ouvindo rima, / pai cantava um cordel sentado em cima / do batente de pau do casarão”.
No livro, ainda é possível enxergar novos olhares sobre a realidade social, por meio de motes como 'Sem primeiro cobrar EDUCAÇÃO, ninguém vai reduzir 'maioridade'', o qual ela apresentou em 2013, representando do movimento estudantil durante um ato contra a redução da maioridade penal, na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Na glosa, ela questiona: “Será justo cobrar de um infrator / que não teve direito a ter direito? / e é somente reflexo do efeito / de um sistema covarde e opressor [...]”. O Hino Nacional, o centenário de Luiz Gonzaga, a viuvez, a família, o amor e a infância são outros temas abordados nos versos da jovem poetisa. É impossível, neste artigo, ressaltar por completo a grandiosidade da obra de Mariana, até porque a literatura é carregada de plurissignificação. Portanto, meu desejo é apenas impelir o leitor a procurar beber das doces águas do mar de Mariana, cujo leito é o sertão, mas – como ela mesma afirma – trata-se de “um mar em busca do mundo”.
(Texto publicado na coluna Dois Dedos de Prosa, do Jornal Extra de Pernambuco)
Ao contrário do que supostamente profetizava Antônio Conselheiro, o sertão não vai virar mar, tendo em vista que já o é. Isso porque nasceu no Alto Sertão do Pajeú, mais precisamente no município de Tuparetama-PE, uma escritora que, até mesmo pelo nome, é um verdadeiro mar de versos. Estou me referindo a Mariana Teles, poetisa, declamadora e concluinte do curso de Direito na Universidade Católica de Pernambuco. Recentemente, ela lançou o livro 'Um Novo Mar de Poesias'. A obra, de produção independente, reúne cerca de seis dezenas de poemas em 201 páginas.
Filha do exímio cantador Valdir Teles e da professora Maria Elza, a garota – de 20 anos de idade – mescla em sua poética a resistência sertaneja com a sensibilidade feminina. No livro, percebe-se a interação entre universos distintos. A começar pela capa, cujo título destaca a palavra 'mar', seguido por uma ilustração que remete à grande porção de águas, mas também apresenta um cacto, símbolo da seca e das grandes porções de terras nordestinas. No interior do livro, há sonetos, motes, décimas, sextilhas, trovas e comentários sobre os mais diversos temas. Tanto o lirismo quanto a crítica social estão presentes na obra, passando pela fé e pela exaltação à terra. É possível encontrar nessas páginas resquícios da guria sertaneja que cresceu ouvindo cantoria e escrevendo versos, mas também da mulher que se forma em Direito e amplifica sua visão de mundo. É possível captar a essência de uma verdadeira amante das palavras, estejam elas na métrica das poesias ou nos artigos das leis.
Na realidade, o que se vê nos versos de Mariana é o espírito do ser humano, que se manifesta em suas mais variadas formas. São resultados de momentos de sensibilidade, instantes-já, captados com a essência semelhante aos improvisos do pai. Entre os trabalhos, pode-se citar o mote 'Do Batente de Pau do casarão', de Dedé Monteiro, glosado por ela com maestria e maturidade, que podem ser percebidos em estrofes como “No alpendre da casa que eu morava / tinha o gosto do doce da poesia. / Fora o terço, a novena, a cantoria, / outra festa por lá ninguém falava. / Quando o véu do poente desbotava, / que o sol apagava o seu clarão, / minha mãe acendia um lampião / e, pra provar que nasci ouvindo rima, / pai cantava um cordel sentado em cima / do batente de pau do casarão”.
No livro, ainda é possível enxergar novos olhares sobre a realidade social, por meio de motes como 'Sem primeiro cobrar EDUCAÇÃO, ninguém vai reduzir 'maioridade'', o qual ela apresentou em 2013, representando do movimento estudantil durante um ato contra a redução da maioridade penal, na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Na glosa, ela questiona: “Será justo cobrar de um infrator / que não teve direito a ter direito? / e é somente reflexo do efeito / de um sistema covarde e opressor [...]”. O Hino Nacional, o centenário de Luiz Gonzaga, a viuvez, a família, o amor e a infância são outros temas abordados nos versos da jovem poetisa. É impossível, neste artigo, ressaltar por completo a grandiosidade da obra de Mariana, até porque a literatura é carregada de plurissignificação. Portanto, meu desejo é apenas impelir o leitor a procurar beber das doces águas do mar de Mariana, cujo leito é o sertão, mas – como ela mesma afirma – trata-se de “um mar em busca do mundo”.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Mínimo Denominador Comum
por
Fabrício Cunha dos Santos
De
tantas coisas importantes que aprendi no tempo de convivência com o
teólogo e filósofo Ed René Kivitz, um mestre por natureza, a
principal de todas elas está numa folha, uma lauda só, só frente,
datilografada há muitos anos e xerocada por mim...
Ele
ainda era estudante universitário quando, numa reunião entre poucos
amigos onde moravam, perto da faculdade, colocaram em pauta a
seguinte questão: “qual seria a filosofia de uma igreja
relevante”. Com a ajuda do grande filósofo Ariovaldo Ramos,
escreveram ali uma lauda com uma filosofia do que seria uma boa
proposta de comunidade cristã. Era seu mínimo denominador comum.
Ed
René tornou-se pastor de uma grande igreja em São Paulo. Ao longo
de seu ministério pastoral, procurou, conheceu, testou várias
metodologias de igreja para, 20 anos depois, concluir que era aquela
folha rabiscada de forma tão sincera e singela, há tantos anos, o
resumo mais coerente de tudo o que procurara e vivenciara enquanto
sistemas aplicáveis a uma comunidade. Aquela folha datilografada era
a síntese de um sonho. Era tão sincera e leve, quanto densa e
expressiva. Permitia que navegassem com liberdade por vários mares,
sem perder a direção, aquele núcleo central que os manteria na
rota, independente das possíveis intempéries.
Dia
desses, revi minha caminhada existencial. Reavaliei a minha fé, solo
sobre o qual pisei nos últimos muitos anos de minha vida. Repensei
sobre minha vida, a vida ao entorno de mim, sobre as amizades, as
decisões, as trajetórias possíveis, olhei, pensei, sorri, chorei,
silenciei ao encontrar-me com meu passado, o mais longínquo e o mais
recente.
Todos
nós precisamos de uma lauda que seja, que nos mantenha vivos e
caminhando n’alguma direção. Não que não possamos mudar os
planos daquilo que escrevemos em algum momento da vida, mas algumas
coisas devem ser tão sólidas, algumas poucas, que nos permitam
transitar por terremos mais estranhos, ir e vir no diferente e mudar
a direção quando necessário, tendo, na solidez desse mínimo,
alguma segurança.
Meu
mínimo denominador comum permanece o mesmo:
Tenho um mestre
maior chamado Jesus de Nazaré e com Ele aprendi que:
o Toda e
cada pessoa tem potencial para ser humana. Cada vez mais humana;
o
Nossas relações devem se estabelecer sobre três alicerces, a
reciprocidade, a alteridade e a incondicionalidade. Os
relacionamentos afetivos e fraternais devem ser recíprocos. Nossa
relação com a humanidade de ser de alteridade. E nossa paternidade
e maternidade devem ser incondicionais em relação aos seres que
gerarmos;
o A sociedade pode subverter a ordem na qual está
estabelecida, trocando a competitividade pela solidariedade, o poder
do dinheiro pela força do amor, a tendência ao acúmulo pela
partilha e o juízo e a maldade pela graça e misericórdia.
Tento
me alimentar desses três parágrafos, meu mínimo denominador comum,
e seguir adiante. Tudo o mais é supérfluo.
Mas como é
difícil.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Professor Reginaldo Melo
por Jénerson Alves
Texto publicado na Coluna Dois Dedos de Prosa, do Jornal Extra de Pernambuco - ed. 625
Ao lado de outros poetas de Caruaru, entrei no
apartamento onde o professor Reginaldo Melo está internado há três
semanas, em um hospital particular. Ele nos recebeu com alegria,
apesar da fragilidade física. Com a voz bem cansada, quase
inaudível, um dos primeiros assuntos que ele pediu foi: “Ajudem-me
a publicar o cordel sobre o Rio Ipojuca, que já está pronto, só
falta ser levado à gráfica”. Coincidentemente, ele estava com uma
camisa de um Encontro sobre a questão hídrica que participou em
Goiás.
![]() |
| Prof. Reginaldo (centro), ao lado de Espingarda do Cordel (e) e Jénerson Alves (d) |
Durante o encontro no quarto do hospital, ocorrido
na última semana, quando Olegário Filho, Nelson Lima, Val Tabosa,
Dorge Tabosa, Nerisvaldo Alves e eu o visitamos, comprometemo-nos em
procurar os meios para imprimir o cordel sobre o Rio Ipojuca, sim.
Além disso, vamos realizar – em nome da Academia Caruaruense de
Literatura de Cordel – um recital apenas com poemas do mestre
Reginaldo.
O meio ambiente, a cultura e a sociedade estão
entre os temas sobre os quais Reginaldo Melo mais se debruçou ao
longo da vida. Por meio dos versos dos seus cordéis, muitas pessoas
tiveram a consciência despertada para a coletividade. Ele fez da
poesia um ofício quase sacerdotal, “por saber da importância / de
ser um educador” (afirmou em uma estrofe).
Entre outros trabalhos de Reginaldo Melo que se
encontram na “gaveta”, existe um cordel contando a história do
Poder Legislativo. O texto foi escrito sob encomenda da Câmara de
Caruaru, com ilustrações do jovem xilogravurista Espingarda do
Cordel, que desponta como uma referência da nova geração nessa
arte. Tudo está pronto desde o ano passado. A ideia é que o folheto
seja impresso e distribuído nas escolas do município. Não tive
acesso ao conteúdo, mas por conhecer o autor sei que o cordel
consiste em uma verdadeira aula de cidadania, provocando a reflexão
e conscientizando os jovens acerca da importância do protagonismo na
política. Talvez por isso não seja interesse da atual legislatura
viabilizar a impressão e distribuição desse folheto…
No meio dos poetas populares, o professor
Reginaldo Melo tem a marca de não se curvar diante de dificuldades,
mantendo-se fiel aos seus princípios. Atualmente, ele luta contra o
carcinoma escamoso (uma doença cancerígena) e complicações no
fígado. Sabemos que ele não vai se curvar diante das enfermidades.
Recentemente, foi lançada na internet uma campanha para que ele
comprasse um remédio nos Estados Unidos no valor de US$ 2.400.
Todavia, sei que existe uma Lei Federal que dispõe acerca da
obrigação do SUS em atender pacientes com câncer. Quero aqui
provocar as autoridades e órgãos competentes para que a obra e a
vida do professor Reginaldo Melo permaneçam servindo de inspiração
para as novas gerações, a fim de que o sentimento de coletividade
não se perca, fazendo raiar uma nova aurora. Para concluir, deixo
uma estrofe em martelo agalopado, escrita por ele: “Só
teremos o estado de direito / Se lutarmos pela democracia / Praticar
e defender cidadania / Não nos resta pensar de outro jeito / Se o
ato de votar não for perfeito / E o voto for uma mercadoria / Se
deixarmos levar por fantasias / Nosso drama jamais terá conserto
Quando o nosso eleitor votar direito / Vamos ver o nascer de um novo
dia”.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Como será a igreja evangélica brasileira de 2040?
Paul Freston
Saiu nos jornais o resultado de uma pesquisa do IBGE com dados interessantes sobre a realidade evangélica no Brasil. O dado que mais nos chamou a atenção é o que diz respeito à categoria evangélica que mais cresce: o “evangélico sem igreja”. A maior parte desse grupo não é de evangélicos “nominais” (os que se autodenominam evangélicos, mas não frequentam uma igreja); antes, é composta pelos que se consideram evangélicos, mas não se identificam com denominação alguma. Longe de ser “nominal” ou “não-praticante”, o evangélico sem igreja talvez frequente várias igrejas sem se definir por uma; ou pode ser que assista a uma igreja durante alguns meses, antes de passar facilmente a outra. Com isso, não chega a se sentir assembleiano ou batista ou presbiteriano ou quadrangular. Existe, então, um setor crescente de pessoas que se identificam como evangélicas, mas não como pertencentes a uma determinada denominação.
Tudo isso significa que logo vivenciaremos uma nova fase da religião evangélica no Brasil. Estamos desde os anos 50 na fase do crescimento rápido. (Antes dos anos 50 as igrejas não cresciam tanto.) Crescimento rápido significa que a igreja média tem poucas pessoas que nasceram evangélicas, mas muitas que se converteram, inclusive que acabaram de se converter. Essa situação é privilegiada sob muitos aspectos, mas também tem certas implicações. Quando terminar a fase do crescimento rápido -- provavelmente nas próximas duas ou três décadas --, haverá outro perfil em uma igreja média: mais pessoas que “nasceram na igreja” e menos que se converteram ou que acabaram de se converter. Com isso, muitas coisas mudarão. O perfil de liderança eclesiástica exigida mudará. O crescimento rápido privilegia certo tipo de líder: o que tem um ministério capaz de atrair novos membros. Isso, claro, é muito importante, e sempre haverá espaço para esse tipo de líder. Porém, com a estabilização da igreja, haverá mais espaço para outras modalidades de liderança. E, como sabemos pelo Novo Testamento, os ministérios na igreja são múltiplos e variados. Não devemos ter uma linha de montagem de líderes cristãos com todos exatamente iguais. Temos de abraçar a variedade de ministérios e de tipos de líder evangélico.
Por que no futuro uma variedade de tipos de líder será ainda mais importante? Quando as igrejas crescem muito, a exigência é fazer bem o bê-á-bá, pois há sempre pessoas novas chegando. Entretanto, quando há uma comunidade estabilizada numericamente, com mais pessoas com muito tempo de vivência evangélica, outras exigências ganham força. “Entre a conversão e a morte, o que tenho de fazer? Como desenvolvo a minha fé? Como devo crescer nas mais variadas áreas? O que significa ser discípulo de Cristo em todas as dimensões da vida? O que a fé evangélica tem a dizer sobre as questões que agitam a sociedade?” Haverá, então, mais exigência por um ensino variado e por pessoas que saibam falar para a sociedade em nome da fé evangélica. Precisaremos de pessoas preparadas nas mais diversas áreas de interface com a sociedade; portanto, precisaremos de ministérios cada vez mais diversificados. Esse tipo de líder não aparece da noite para o dia, pois a formação leva tempo. O carisma e o autodidatismo não bastam nesses casos.
Além disso, será cada vez mais importante a questão da transparência: primeiro, porque é uma demanda do próprio evangelho e, segundo, porque (queira Deus!) o Brasil de 2040 terá uma democracia mais limpa e transparente. Os líderes evangélicos do futuro precisarão ter vida pessoal capaz de ser examinada. Haverá menos tolerância para o líder inacessível e opaco, que vive atrás das máscaras. Em vez disso, uma liderança mais exposta e vulnerável será exigida. E as técnicas não ajudam nisso. O que produz esse tipo de líder é um profundo processo de formação pessoal, que leva tempo.
Se não houver pessoas à altura, é possível que, quando terminar o crescimento rápido, em vez de uma comunidade evangélica estabilizada em torno de 35% durante gerações e com um efeito benéfico profundo na vida do país, haja um decréscimo na porcentagem de evangélicos. A curva numérica que agora ascende rapidamente pode cair de forma igualmente rápida. O evangélico ingênuo, que acha que isso nunca poderá acontecer, desconhece a história da igreja cristã, pois isso aconteceu algumas vezes em outros países. Se não tivermos um olhar para o futuro, para perceber os desafios de amanhã e nos preparar hoje para eles, a probabilidade é que esse declínio aconteça.
Portanto, o primeiro desafio de hoje em função do futuro é formar um leque de tipos de líder, com ministérios variados, mas sempre humildes e com vidas transparentes. E o segundo desafio é a recuperação da Bíblia. A identidade evangélica não deve estar ligada meramente a uma tradição que se chama evangélica. Antes, ser evangélico significa a vontade de ser verdadeiramente bíblico, em todas as dimensões da vida com Cristo. E a Bíblia é um grande país, um terreno vasto, que precisamos conhecer por inteiro. Todavia, perdemos muito o sentido de ser bíblico. É raro hoje ouvir sermões verdadeiramente embasados na Bíblia. São mais comuns aqueles que nem sequer partem da Bíblia, ou aqueles em que o pregador lê um texto bíblico para depois falar de outro assunto. É incomum a interação séria com o texto bíblico, em que se deixa o texto falar para depois se fazer as aplicações para a vida pessoal, comunitária e social. É raro porque é difícil. Esse tipo de mensagem requer formação, preparo, pensamento, meditação. Via de regra, na fase atual do crescimento rápido, é mais fácil não fazer tudo isso, se preocupar apenas em ter uma igreja cheia.
Em um futuro próximo, porém, esse enfoque será cada vez mais necessário. Se não recuperarmos a capacidade de interagir com o texto bíblico, de deixá-lo falar a nós e, a partir disso, tirar as implicações individuais, eclesiásticas e nacionais, nos mostraremos irrelevantes. Assim, é possível que a curva decline logo após a estabilização, pois a capacidade de estudar e ensinar a Bíblia é algo que não se constrói da noite para o dia. É necessário exigirmos de nossos líderes que ensinem a Palavra, que interajam profundamente com o texto bíblico, que não fujam! Contudo, o bom ensino na igreja precisa também ser complementado pela leitura individual. É fundamental adquirir menos livros água com açúcar ou triunfalistas e mais leituras que nos embasem biblicamente.
O processo, portanto, tem de começar com os membros comuns exigindo uma melhor qualidade de ensino e de literatura. A nova liderança para fazer frente aos desafios de 2030 e 2040 só vai surgir se houver uma demanda articulada a partir dos membros das igrejas.
Dentro do tema da recuperação da Bíblia, insisto na centralidade dos Evangelhos. Comenta-se que a fé evangélica se tornou prisioneira da cultura religiosa da barganha. Ora, uma das maneiras de superar a cultura da barganha é incentivar a dedicação a uma causa (como fazem os movimentos políticos mais ideológicos). O problema, neste caso, é a persistência ao longo do tempo, a capacidade de continuar dedicado a ela durante décadas e apesar dos contratempos. Porém, existe uma outra maneira de combatermos a cultura religiosa da barganha: encantando-nos com a figura de Cristo, com a humildade amorosa de sua figura humana retratada nos quatro Evangelhos. O melhor antídoto para a cultura da barganha é o fascínio por Cristo, que advém do estudo sério dos Evangelhos.
A igreja evangélica brasileira de 2040 precisará, portanto, de líderes mais diversos nos seus dons, profundos no seu conhecimento e sabedoria e transparentes nas suas vidas; e precisará ter redescoberto o verdadeiro sentido de ser evangélico, que é a vontade de ser profundamente bíblico em toda a nossa existência. Esses dois requisitos existirão se a igreja de hoje tomar as medidas necessárias.
• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.
Fonte: site da Ultimato
Shaolin e o absurdo
por Jénerson Alves (texto publicado na coluna Dois Dedos de Prosa, no Jornal Extra de Pernambuco)
Talvez dizer que Josenilton Veloso faleceu não gerasse tanta comoção. Ele era muito mais conhecido pelo seu codinome artístico: Shaolin. O paraibano sempre honrou o chão onde nasceu. Iniciou seus trabalhos na antiga Rádio Borborema, em Campina Grande. O jornalista Astier Basílio acentua que, algum tempo depois, já na TV Borborema, Shaolin chamava a atenção porque, em vez de imitar personalidades nacionais, como Sílvio Santos e Paulo Maluf, ele dedicou-se aos personagens locais, a exemplo de Pedro Chulé, Doutor Damião e Ronaldo Cunha Lima. Foi com essa essência que o humorista ganhou o Brasil. No SBT, na Record ou na Globo, ele levou a alegria nordestina para milhões de brasileiros.
Talvez dizer que Josenilton Veloso faleceu não gerasse tanta comoção. Ele era muito mais conhecido pelo seu codinome artístico: Shaolin. O paraibano sempre honrou o chão onde nasceu. Iniciou seus trabalhos na antiga Rádio Borborema, em Campina Grande. O jornalista Astier Basílio acentua que, algum tempo depois, já na TV Borborema, Shaolin chamava a atenção porque, em vez de imitar personalidades nacionais, como Sílvio Santos e Paulo Maluf, ele dedicou-se aos personagens locais, a exemplo de Pedro Chulé, Doutor Damião e Ronaldo Cunha Lima. Foi com essa essência que o humorista ganhou o Brasil. No SBT, na Record ou na Globo, ele levou a alegria nordestina para milhões de brasileiros.
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| Humorista Shaolin. Foto: PBAgora/Reprodução |
Encontrar motivos para sorrir diante de uma
existência tão absurda é um grande feito. Ter um olhar para os
detalhes, enxergando a beleza da vida, é um milagre que apenas os
artistas conseguem fazer. Seus personagens, suas imitações, suas
composições, sua voz inigualável e seu sorriso indelével ficarão
marcados na nossa memória e no nosso coração.
Absurdo também foi o acidente que ele sofreu na
BR-230, em Campina Grande, no dia 18 de janeiro de 2011. Depois
disso, foram praticamente cinco anos de batalha. Operação,
internamento, coma. O baixinho que fez o Brasil sorrir também deixou
a população apreensiva. Recentemente, havia voltado a se comunicar
com a família, através do olhar e de expressões faciais. No dia
14, veio a triste notícia, o Brasil ficou menos alegre e o humor
entrou de luto.
Nestes tempos de crise no que é chamado de humor
em nosso país, artistas como Shaolin fazem muita falta. Ainda bem
que permanece a semente no seu filho, Lucas Veloso, o qual já
testificou no Facebook que deseja “honrar a alegria” do pai
“todos os dias”. A esperança dá sinais que haverá mais motivos
para sorrir.
Entre várias homenagens póstumas prestadas a
ele, destaco a do poeta Oliveira de Panelas, que fez um jogo sonoro e
visual entre o nome do humorista e o sentimento de saudade:
“Tchau SHAOLIN, tchau tchau!
Tchau SHAOLIN, tchau,
Tchau SHAOLIN,
SHAOLIN,
Tchau!”
Tchau SHAOLIN, tchau,
Tchau SHAOLIN,
SHAOLIN,
Tchau!”
Em tempo: afirmo que não conheci Shaolin
pessoalmente. Mas isso é desnecessário. Ele era daquele tipo de
artista que parecia que ia sentar conosco no quintal e tomar um
refrigerante, conversando como quem se conhece há muito tempo. Eu
gostaria de falar para a viúva, Laudiceia, e para a família que,
apesar da dor, é necessário lembrar que o Shaolin (aliás, que o
Josenilton) atualmente está em um camarim, aguardando para o maior
espetáculo da humanidade, quando esse “tchau” se transformará
em um sorriso eterno.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Por que você deve investir no mandarim em 2016?
Por Sumara Lorusso
Você já pensou em incluir a língua chinesa no seu currículo? Se sua resposta for negativa, então comece a pensar nessa possibilidade agora mesmo. A cada dia que passa, o Mandarim se torna mais importante e popular, sendo o idioma mais ensinado em todo o mundo. Apesar de parecer impossível de aprender, ele tem gramática muito simples e o curso completo dura cerca de três anos. Se ainda assim, não consegui te convencer, confira a seguir cinco excelentes motivos para você incluir o Mandarim nas suas metas de ano novo!
1) A China é uma potência mundial, não há como negar: O país emergiu de um longo período de estagnação e, atualmente, é uma das grandes potências mundiais. Sua economia só perde para os Estados Unidos e o país não para de crescer. Diariamente, o mercado internacional volta sua atenção para a China. Isso ocorre porque tudo que acontece por lá reflete diretamente na economia de outros países. Faça um teste para notar essa influência e assista ou leia alguns noticiários, sempre haverá matérias referentes ao país. No mundo dos negócios não é diferente e uma coisa é certa: se você nunca negociou com chineses, ainda irá negociar. Ter o Mandarim na manga certamente vai te ajudar.
2) Os chineses estão de olho no Brasil e vice-versa: Há quem diga que a China acredita no Brasil mais do que nós mesmos. Dessa forma, não há dúvidas quanto ao mar de oportunidades que essa relação oferece. O país é um dos maiores compradores e vendedores de produtos para o Brasil. Mas a relação vai muito além do comércio, a China busca unir seu abundante capital com a nossa necessidade de promover melhorias de infraestrutura. Diretamente relacionada a esse aumento do intercâmbio comercial, surge a demanda por profissionais que atendam os chineses no Brasil. Leva vantagem, é claro, quem sabe falar a língua. Por questões culturais, esse fator estreita os laços de confiança. Ainda que falem inglês, os chineses preferem fechar negócios falando a língua materna.
3) Diferencial competitivo e ganhos exponenciais: Que o inglês é essencial, ninguém discute. Mas, o Mandarim é um diferencial competitivo. Pra se ter uma ideia, entre os americanos o chinês já é a segunda língua que mais desperta interesse, vindo logo após o espanhol. A concorrência por bons empregos, estágios e trainees está altíssima, para conseguir um diferencial competitivo, nada melhor do que enriquecer seu currículo acrescentando conhecimentos pouco convencionais, como o Mandarim. Além disso, de acordo com empresários e agências de recrutamento, saber o idioma chinês pode até mesmo aumentar seus ganhos. No caso de um engenheiro, por exemplo, o salário base chega a dobrar caso o profissional tenha domínio dessa língua.
4) Imersão em uma cultura rica e diferenciada: Com mais de cinco mil anos de idade, a cultura chinesa possui uma diversidade encantadora com suas tradições e peculiaridades. O próprio Mandarim, que representa um dos diversos dialetos presentes no país, possui uma grande representatividade cultural. Além disso, uma das principais maneiras de otimizar o aprendizado de uma língua estrangeira é pensando como seu povo, imergindo em sua cultura. Por isso, é essencial dedicar-se um pouco mais para adquirir esse conhecimento. Uma ideia é começar pelos ensinamentos de grandes filósofos chineses, como Confúcio, por exemplo. Normalmente, quando uma poesia chinesa é traduzida para o Português muita coisa se perde pelo caminho, mas ao saber o idioma você poderá captar a verdadeira essência do que foi escrito. Isso sem contar a medicina, as lutas, as festas, as novelas, as superstições, etc. Um verdadeiro universo dentro dessa cultura milenar e que você terá ao alcance de suas mãos.
5) Oportunidade de vivenciar uma experiência única no exterior: Para quem gosta de se aventurar em diferentes partes do mundo, a China é uma das melhores opções. O país, de proporções continentais, tem opções para todos os gostos e estilos. Depois de conhecer um pouco sobre a cultura, será inevitável que você desenvolva um desejo enorme de vivenciar isso na pele. Embora grandes empresários falem inglês, a grande maioria da população só fala Mandarim. Assim, para você conseguir se comunicar bem, será mais do que necessário saber, ao menos um pouquinho, do idioma. Além disso, é muito mais prazeroso conhecer uma cultura com seus habitantes nativos do que com turistas ou estrangeiros.
Estes são apenas alguns motivos que demonstram o quanto aprender chinês pode ser uma excelente escolha para sua vida profissional e pessoal. Com toda certeza, a China ainda tem muito que nos ensinar e o idioma é apenas uma pequena contribuição frente a riqueza imaterial desse país. Agora, se aprender essa língua não estava nos seus planos de ano novo, sugiro que reveja essa decisão com carinho, você não irá se arrepender! Jiérì kuàilè! (boa sorte).
Sumara Lorusso é formada em letras e tradução pela Unibero e tem fluência em mais de cinco idiomas, incluindo o Mandarim. É presidente da Nin Hao, escola referência no ensino do idioma, há dez anos no mercado.
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