segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Como será a igreja evangélica brasileira de 2040?

Paul Freston
 
Saiu nos jornais o resultado de uma pesquisa do IBGE com dados interessantes sobre a realidade evangélica no Brasil. O dado que mais nos chamou a atenção é o que diz respeito à categoria evangélica que mais cresce: o “evangélico sem igreja”. A maior parte desse grupo não é de evangélicos “nominais” (os que se autodenominam evangélicos, mas não frequentam uma igreja); antes, é composta pelos que se consideram evangélicos, mas não se identificam com denominação alguma. Longe de ser “nominal” ou “não-praticante”, o evangélico sem igreja talvez frequente várias igrejas sem se definir por uma; ou pode ser que assista a uma igreja durante alguns meses, antes de passar facilmente a outra. Com isso, não chega a se sentir assembleiano ou batista ou presbiteriano ou quadrangular. Existe, então, um setor crescente de pessoas que se identificam como evangélicas, mas não como pertencentes a uma determinada denominação.
 
Há também outra tendência que logo vai aparecer. Ainda não temos os resultados religiosos do Censo de 2010, mas as pesquisas recentes indicam que a porcentagem de evangélicos continua crescendo -- não no ritmo dos anos 90 (que foi inteiramente excepcional), mas voltando ao ritmo de crescimento que caracterizou os anos 50, 60, 70 e 80. Contudo, esse crescimento um dia vai parar. Tal afirmação não é uma questão de “falta de fé”! Mesmo estatisticamente, nenhum processo de crescimento pode durar para sempre. Percebemos, pelas tendências atuais, que o fim do crescimento evangélico no Brasil pode não estar distante. De cada duas pessoas que deixam de se considerar católicas, apenas uma passa a se considerar evangélica. Além disso, evidentemente, a Igreja Católica não está a ponto de desaparecer. Fenômenos como a Canção Nova e outros testemunham disso; ou seja, há formas de catolicismo que arrebanham muita gente. É verdade que o catolicismo continua diminuindo numericamente, mas principalmente entre adeptos nominais ou de vínculo fraco. Existe um núcleo sólido que não está desaparecendo e que constitui, provavelmente, em torno de 25 a 30% da população. Pelas tendências atuais, será difícil que os evangélicos, que hoje são em torno de 20%, passem de 35% da população.
 
Tudo isso significa que logo vivenciaremos uma nova fase da religião evangélica no Brasil. Estamos desde os anos 50 na fase do crescimento rápido. (Antes dos anos 50 as igrejas não cresciam tanto.) Crescimento rápido significa que a igreja média tem poucas pessoas que nasceram evangélicas, mas muitas que se converteram, inclusive que acabaram de se converter. Essa situação é privilegiada sob muitos aspectos, mas também tem certas implicações. Quando terminar a fase do crescimento rápido -- provavelmente nas próximas duas ou três décadas --, haverá outro perfil em uma igreja média: mais pessoas que “nasceram na igreja” e menos que se converteram ou que acabaram de se converter. Com isso,  muitas coisas mudarão. O perfil de liderança eclesiástica exigida mudará. O crescimento rápido privilegia certo tipo de líder: o que tem um ministério capaz de atrair novos membros. Isso, claro, é muito importante, e sempre haverá espaço para esse tipo de líder. Porém, com a estabilização da igreja, haverá mais espaço para outras modalidades de liderança. E, como sabemos pelo Novo Testamento, os ministérios na igreja são múltiplos e variados. Não devemos ter uma linha de montagem de líderes cristãos com todos exatamente iguais. Temos de abraçar a variedade de ministérios e de tipos de líder evangélico. 
 
Por que no futuro uma variedade de tipos de líder será ainda mais importante? Quando as igrejas crescem muito, a exigência é fazer bem o bê-á-bá, pois há sempre pessoas novas chegando. Entretanto, quando há uma comunidade estabilizada numericamente, com mais pessoas com muito tempo de vivência evangélica, outras exigências ganham força. “Entre a conversão e a morte, o que tenho de fazer? Como desenvolvo a minha fé? Como devo crescer nas mais variadas áreas? O que significa ser discípulo de Cristo em todas as dimensões da vida? O que a fé evangélica tem a dizer sobre as questões que agitam a sociedade?” Haverá, então, mais exigência por um ensino variado e por pessoas que saibam falar para a sociedade em nome da fé evangélica. Precisaremos de pessoas preparadas nas mais diversas áreas de interface com a sociedade; portanto, precisaremos de ministérios cada vez mais diversificados. Esse tipo de líder não aparece da noite para o dia, pois a formação leva tempo. O carisma e o autodidatismo não bastam nesses casos.
 
Além disso, será cada vez mais importante a questão da transparência: primeiro, porque é uma demanda do próprio evangelho e, segundo, porque (queira Deus!) o Brasil de 2040 terá uma democracia mais limpa e transparente. Os líderes evangélicos do futuro precisarão ter vida pessoal capaz de ser examinada. Haverá menos tolerância para o líder inacessível e opaco, que vive atrás das máscaras. Em vez disso, uma liderança mais exposta e vulnerável será exigida. E as técnicas não ajudam nisso. O que produz esse tipo de líder é um profundo processo de formação pessoal, que leva tempo. 
 
Se não houver pessoas à altura, é possível que, quando terminar o crescimento rápido, em vez de uma comunidade evangélica estabilizada em torno de 35% durante gerações e com um efeito benéfico profundo na vida do país, haja um decréscimo na porcentagem de evangélicos. A curva numérica que agora ascende rapidamente pode cair de forma igualmente rápida. O evangélico ingênuo, que acha que isso nunca poderá acontecer, desconhece a história da igreja cristã, pois isso aconteceu algumas vezes em outros países. Se não tivermos um olhar para o futuro, para perceber os desafios de amanhã e nos preparar hoje para eles, a probabilidade é que esse declínio aconteça. 
 
Portanto, o primeiro desafio de hoje em função do futuro é formar um leque de tipos de líder, com ministérios variados, mas sempre humildes e com vidas transparentes. E o segundo desafio é a recuperação da Bíblia. A identidade evangélica não deve estar ligada meramente a uma tradição que se chama evangélica. Antes, ser evangélico significa a vontade de ser verdadeiramente bíblico, em todas as dimensões da vida com Cristo. E a Bíblia é um grande país, um terreno vasto, que precisamos conhecer por inteiro. Todavia, perdemos muito o sentido de ser bíblico. É raro hoje ouvir sermões verdadeiramente embasados na Bíblia. São mais comuns aqueles que nem sequer partem da Bíblia, ou aqueles em que o pregador lê um texto bíblico para depois falar de outro assunto. É incomum a interação séria com o texto bíblico, em que se deixa o texto falar para depois se fazer as aplicações para a vida pessoal, comunitária e social. É raro porque é difícil. Esse tipo de mensagem requer formação, preparo, pensamento, meditação. Via de regra, na fase atual do crescimento rápido, é mais fácil não fazer tudo isso, se preocupar apenas em ter uma igreja cheia.
 
Em um futuro próximo, porém, esse enfoque será cada vez mais necessário. Se não recuperarmos a capacidade de interagir com o texto bíblico, de deixá-lo falar a nós e, a partir disso, tirar as implicações individuais, eclesiásticas e nacionais, nos mostraremos irrelevantes. Assim, é possível que a curva decline logo após a estabilização, pois a capacidade de estudar e ensinar a Bíblia é algo que não se constrói da noite para o dia. É necessário exigirmos de nossos líderes que ensinem a Palavra, que interajam profundamente com o texto bíblico, que não fujam! Contudo, o bom ensino na igreja precisa também ser complementado pela leitura individual. É fundamental adquirir menos livros água com açúcar ou triunfalistas e mais leituras que nos embasem biblicamente. 
 
O processo, portanto, tem de começar com os membros comuns exigindo uma melhor qualidade de ensino e de literatura. A nova liderança para fazer frente aos desafios de 2030 e 2040 só vai surgir se houver uma demanda articulada a partir dos membros das igrejas. 
Dentro do tema da recuperação da Bíblia, insisto na centralidade dos Evangelhos. Comenta-se que a fé evangélica se tornou prisioneira da cultura religiosa da barganha. Ora, uma das maneiras de superar a cultura da barganha é incentivar a dedicação a uma causa (como fazem os movimentos políticos mais ideológicos). O problema, neste caso, é a persistência ao longo do tempo, a capacidade de continuar dedicado a ela durante décadas e apesar dos contratempos. Porém, existe uma outra maneira de combatermos a cultura religiosa da barganha: encantando-nos com a figura de Cristo, com a humildade amorosa de sua figura humana retratada nos quatro Evangelhos. O melhor antídoto para a cultura da barganha é o fascínio por Cristo, que advém do estudo sério dos Evangelhos.
 
A igreja evangélica brasileira de 2040 precisará, portanto, de líderes mais diversos nos seus dons, profundos no seu conhecimento e sabedoria e transparentes nas suas vidas; e precisará ter redescoberto o verdadeiro sentido de ser evangélico, que é a vontade de ser profundamente bíblico em toda a nossa existência. Esses dois requisitos existirão se a igreja de hoje tomar as medidas necessárias.
 
• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

Fonte: site da Ultimato

Shaolin e o absurdo

por Jénerson Alves (texto publicado na coluna Dois Dedos de Prosa, no Jornal Extra de Pernambuco)

Talvez dizer que Josenilton Veloso faleceu não gerasse tanta comoção. Ele era muito mais conhecido pelo seu codinome artístico: Shaolin. O paraibano sempre honrou o chão onde nasceu. Iniciou seus trabalhos na antiga Rádio Borborema, em Campina Grande. O jornalista Astier Basílio acentua que, algum tempo depois, já na TV Borborema, Shaolin chamava a atenção porque, em vez de imitar personalidades nacionais, como Sílvio Santos e Paulo Maluf, ele dedicou-se aos personagens locais, a exemplo de Pedro Chulé, Doutor Damião e Ronaldo Cunha Lima. Foi com essa essência que o humorista ganhou o Brasil. No SBT, na Record ou na Globo, ele levou a alegria nordestina para milhões de brasileiros.
Humorista Shaolin. Foto: PBAgora/Reprodução

Encontrar motivos para sorrir diante de uma existência tão absurda é um grande feito. Ter um olhar para os detalhes, enxergando a beleza da vida, é um milagre que apenas os artistas conseguem fazer. Seus personagens, suas imitações, suas composições, sua voz inigualável e seu sorriso indelével ficarão marcados na nossa memória e no nosso coração.

Absurdo também foi o acidente que ele sofreu na BR-230, em Campina Grande, no dia 18 de janeiro de 2011. Depois disso, foram praticamente cinco anos de batalha. Operação, internamento, coma. O baixinho que fez o Brasil sorrir também deixou a população apreensiva. Recentemente, havia voltado a se comunicar com a família, através do olhar e de expressões faciais. No dia 14, veio a triste notícia, o Brasil ficou menos alegre e o humor entrou de luto.

Nestes tempos de crise no que é chamado de humor em nosso país, artistas como Shaolin fazem muita falta. Ainda bem que permanece a semente no seu filho, Lucas Veloso, o qual já testificou no Facebook que deseja “honrar a alegria” do pai “todos os dias”. A esperança dá sinais que haverá mais motivos para sorrir.

Entre várias homenagens póstumas prestadas a ele, destaco a do poeta Oliveira de Panelas, que fez um jogo sonoro e visual entre o nome do humorista e o sentimento de saudade:

Tchau SHAOLIN, tchau tchau!
Tchau SHAOLIN, tchau,
Tchau SHAOLIN,
SHAOLIN,
Tchau!”


Em tempo: afirmo que não conheci Shaolin pessoalmente. Mas isso é desnecessário. Ele era daquele tipo de artista que parecia que ia sentar conosco no quintal e tomar um refrigerante, conversando como quem se conhece há muito tempo. Eu gostaria de falar para a viúva, Laudiceia, e para a família que, apesar da dor, é necessário lembrar que o Shaolin (aliás, que o Josenilton) atualmente está em um camarim, aguardando para o maior espetáculo da humanidade, quando esse “tchau” se transformará em um sorriso eterno.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Por que você deve investir no mandarim em 2016?

Por Sumara Lorusso

Você já pensou em incluir a língua chinesa no seu currículo? Se sua resposta for negativa, então comece a pensar nessa possibilidade agora mesmo. A cada dia que passa, o Mandarim se torna mais importante e popular, sendo o idioma mais ensinado em todo o mundo. Apesar de parecer impossível de aprender, ele tem gramática muito simples e o curso completo dura cerca de três anos. Se ainda assim, não consegui te convencer, confira a seguir cinco excelentes motivos para você incluir o Mandarim nas suas metas de ano novo!
1) A China é uma potência mundial, não há como negar: O país emergiu de um longo período de estagnação e, atualmente, é uma das grandes potências mundiais. Sua economia só perde para os Estados Unidos e o país não para de crescer. Diariamente, o mercado internacional volta sua atenção para a China. Isso ocorre porque tudo que acontece por lá reflete diretamente na economia de outros países. Faça um teste para notar essa influência e assista ou leia alguns noticiários, sempre haverá matérias referentes ao país. No mundo dos negócios não é diferente e uma coisa é certa: se você nunca negociou com chineses, ainda irá negociar. Ter o Mandarim na manga certamente vai te ajudar. 
2) Os chineses estão de olho no Brasil e vice-versa: Há quem diga que a China acredita no Brasil mais do que nós mesmos. Dessa forma, não há dúvidas quanto ao mar de oportunidades que essa relação oferece. O país é um dos maiores compradores e vendedores de produtos para o Brasil. Mas a relação vai muito além do comércio, a China busca unir seu abundante capital com a nossa necessidade de promover melhorias de infraestrutura. Diretamente relacionada a esse aumento do intercâmbio comercial, surge a demanda por profissionais que atendam os chineses no Brasil. Leva vantagem, é claro, quem sabe falar a língua. Por questões culturais, esse fator estreita os laços de confiança. Ainda que falem inglês, os chineses preferem fechar negócios falando a língua materna.
3) Diferencial competitivo e ganhos exponenciais: Que o inglês é essencial, ninguém discute. Mas, o Mandarim é um diferencial competitivo. Pra se ter uma ideia, entre os americanos o chinês já é a segunda língua que mais desperta interesse, vindo logo após o espanhol. A concorrência por bons empregos, estágios e trainees está altíssima, para conseguir um diferencial competitivo, nada melhor do que enriquecer seu currículo acrescentando conhecimentos pouco convencionais, como o Mandarim. Além disso, de acordo com empresários e agências de recrutamento, saber o idioma chinês pode até mesmo aumentar seus ganhos. No caso de um engenheiro, por exemplo, o salário base chega a dobrar caso o profissional tenha domínio dessa língua. 
4) Imersão em uma cultura rica e diferenciada: Com mais de cinco mil anos de idade, a cultura chinesa possui uma diversidade encantadora com suas tradições e peculiaridades. O próprio Mandarim, que representa um dos diversos dialetos presentes no país, possui uma grande representatividade cultural. Além disso, uma das principais maneiras de otimizar o aprendizado de uma língua estrangeira é pensando como seu povo, imergindo em sua cultura. Por isso, é essencial dedicar-se um pouco mais para adquirir esse conhecimento. Uma ideia é começar pelos ensinamentos de grandes filósofos chineses, como Confúcio, por exemplo. Normalmente, quando uma poesia chinesa é traduzida para o Português muita coisa se perde pelo caminho, mas ao saber o idioma você poderá captar a verdadeira essência do que foi escrito. Isso sem contar a medicina, as lutas, as festas, as novelas, as superstições, etc. Um verdadeiro universo dentro dessa cultura milenar e que você terá ao alcance de suas mãos.
5) Oportunidade de vivenciar uma experiência única no exterior: Para quem gosta de se aventurar em diferentes partes do mundo, a China é uma das melhores opções. O país, de proporções continentais, tem opções para todos os gostos e estilos. Depois de conhecer um pouco sobre a cultura, será inevitável que você desenvolva um desejo enorme de vivenciar isso na pele. Embora grandes empresários falem inglês, a grande maioria da população só fala Mandarim. Assim, para você conseguir se comunicar bem, será mais do que necessário saber, ao menos um pouquinho, do idioma. Além disso, é muito mais prazeroso conhecer uma cultura com seus habitantes nativos do que com turistas ou estrangeiros.
Estes são apenas alguns motivos que demonstram o quanto aprender chinês pode ser uma excelente escolha para sua vida profissional e pessoal. Com toda certeza, a China ainda tem muito que nos ensinar e o idioma é apenas uma pequena contribuição frente a riqueza imaterial desse país. Agora, se aprender essa língua não estava nos seus planos de ano novo, sugiro que reveja essa decisão com carinho, você não irá se arrepender! Jiérì kuàilè! (boa sorte).
Sumara Lorusso é formada em letras e tradução pela Unibero e tem fluência em mais de cinco idiomas, incluindo o Mandarim. É presidente da Nin Hao, escola referência no ensino do idioma, há dez anos no mercado.

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