domingo, 15 de novembro de 2015

Os dez mandamentos

por Jénerson Alves (texto publicado na coluna Dois Dedos de Prosa, do Jornal Extra de Pernambuco)



Não assisto a novelas. Aliás, pouco assisto televisão. Toda vez que alguém liga o aparelho lá em casa, eu entro no quarto e leio um livro. Porém, pelas redes sociais foi que descobri que existe uma novela com o mesmo título do capítulo 20 do livro bíblico de Êxodo. E que, durante a semana, houve a exibição da clássica cena da passagem pelo Mar Vermelho. A produção chegou a alcançar o primeiro lugar no Ibope, com 31 pontos de audiência em São Paulo – em Recife, teve média de 32,5 pontos.
Na realidade, eu me recordava do filme 'Os dez mandamentos', dirigido por Cecil B. DeMille e estrelado por Charlton Heston e Anne Baxter. A obra, dos anos 50, é considerada um dos melhores filmes de todos os tempos. O enredo, claro, é a vida de Moisés, personagem bíblico que foi colocado nas águas em um cesto, mas foi adotado por uma princesa egípcia e depois tornou-se o libertador dos hebreus.
Porém, Moisés não é somente um protagonista de cinema e de TV. Durante muito tempo, céticos discordavam da possibilidade da existência de Moisés, dizendo que a história do Êxodo teria sido uma adaptação do mito de Sargão I, rei que governou a Babilônia na segunda metade do 3º milênio a.C. Atualmente, há diversos estudiosos que acreditam na veracidade do personagem e da narrativa. Segundo esses intelectuais, o Êxodo teria ocorrido por volta de 147 a.C. e Moisés teria sido contemporâneo de Tutmés II, o qual seria meio irmão e marido da princesa Hatshepsut (que o teria adotado).
As contribuições de Moisés para os dias de hoje ainda são fascinantes e adentram no ambiente político. Ao contrário da ideia de que a Grécia foi o berço da democracia, historiadores da estirpe de Vishal Mangawaldi apontam que foi a partir da Bíblia que os Estados Unidos consolidou sua base democrática. Foi com Moisés, que instituiu um governo baseado na Lei, contando com a ajuda de líderes escolhidos pelo povo. Esse relato está no capítulo 18 do Êxodo. Perceba que é uma ótica bastante distinta da grega – defendida por Platão –, que entendia o governo do filósofo rei como o mais eficiente.

Mais do que mote para efeitos especiais, por intermédio da vida de Moisés é possível encontrar inspiração para a vida. As influências deste personagem vão além dos efeitos especiais que espetacularizam as novelas e filmes. Meditar nesta narrativa pode gerar como efeito a adoção de um projeto de vida especial e fascinante. Afinal de contas, segundo a Bíblia, foi Moisés quem recebeu de Deus os tabletes com os Dez Mandamentos, como símbolo de um concerto eterno entre a Trindade e o Seu Povo. Aquelas tábuas não são apenas artefatos antigos, nem correspondem a uma série de normas instituídas. São princípios que oferecem soluções para a vida de cada um de nós. Acredito que em nenhuma outra fase da história da humanidade foi tão necessário ouvir expressões como “Não matarás; honrarás teu pai e tua mãe; não adulterarás; não dirás falso testemunho; lembra-te do Sábado (dia do descanso)” e, principalmente, “Não terás outros deuses diante de Mim”. Mais do que ouvi-las, é necessário refletir sobre elas, até que elas entrem no coração e tomem conta da existência. Isso não ocorre por meio de concepções cinematográficas, mas da decisão particular. Essa Lei que libertou os hebreus dos grilhões egípcios consiste em princípios que podem libertar o ser humano das algemas líquidas do tempo presente.  

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Da Reforma à Bancada Evangélica

por Jénerson Alves

Dificilmente o dia 31 de outubro é lembrado por causa da Reforma Protestante. Boa parte da população, inclusive evangélica, associa a data à celebração do Halloween. Esse fato não causa espanto, uma vez que as doutrinas bíblicas levantadas pelos reformadores estão cada vez mais distanciadas dos púlpitos, dos lábios e do coração do povo que se autodenomina “de Deus”. O movimento liderado por Martinho Lutero em 1517 era contrário às indulgências, mas atualmente o lobby político, o suborno do dízimo e a fixação fetichista por poder secular têm sido as características preponderantes de uma Igreja que abandonou os passos de Jesus.
Atualmente, assim como no século XVI, as divergências entre a prática dos cristãos e a fé professada são gritantes. Se, no famoso texto da Carta a Diogneto (considerada “a maior joia da literatura cristã primitiva”), os cristãos são comparados à alma do mundo, que, “mesmo vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, (...) testemunham um modo de vida admirável”, infelizmente não é assim que são tratados aqueles que se apresentam como cristãos atualmente, principalmente os que se encontram sob os holofotes da mídia. Basta dar uma olhada na chamada ‘bancada evangélica’ do Congresso Nacional.
Na realidade, a bancada é uma representação de um sem-número de evangélicos cujas práticas são completamente opostas à mensagem de Jesus. Com discursos de ódio, disparam contra todos os que pensam de modo diferente. Para se ter uma ideia, as agressões a membros de comunidades de terreiro estão se proliferando tanto no país que lideranças reivindicaram no Senado a criação de uma CPI para combater a intolerância religiosa. Pasmem. A maioria dos intolerantes é oriunda de igrejas evangélicas, principalmente de linha pentecostal. Não precisa ir muito longe para constatar isso. Grande exemplo de intolerância neste sentido é um vídeo do pastor Lucinho Barreto, que circula na internet, no qual ele narra efusivamente uma ‘aventura’ com adolescentes da igreja que lidera, atrapalhando manifestações dos religiosos de matriz africana. Mesmo sendo um senhor de meia-idade, Lucinho fala como um adolescente de 15 anos e é considerado no meio gospel como uma “referência para a juventude”. Some-se a isso o ódio contra os homossexuais, o fetichismo pelo dinheiro nos cultos da prosperidade, a negação da cultura e o mundanismo da ‘pureza’ sexual. O resultado não poderia ser outro: uma grande massa de alienados que não sabe viver em comunidade.
Historicamente, evangélicos como Robert Kalley lutaram pela laicidade do Estado brasileiro. Mais recentemente, o pastor Lisâneas Maciel, enquanto deputado, lutou pelo fim da ditadura. Atualmente, a ‘bancada evangélica’ segue na contramão do legado histórico e teológico dos evangélicos. É hora de rever o papel da igreja por meio das ciências sociais e buscar um avivamento através da Bíblia, trazendo à tona os cinco solas da Reforma: Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria.

Segundo a Bíblia, quem foi remido pelo Sangue do Cordeiro passa a andar em “novidade de vida”. Assim sendo, o padrão de vida seguido pelo cristão deve glorificar a Deus. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5:17). A Igreja precisa reafirmar seu compromisso de restauradora de veredas. Assim como João Batista, a Igreja precisa preparar a sociedade para a vinda do Messias. Do ponto de vista da participação política, ela tem de engajar-se com os ideais de justiça, paz e amor do Reino de Deus. Quanto ao entendimento, necessita estar cingida do conhecimento de Cristo. Quanto à prática, deve ser amorosa. Afinal de contas, faz-se necessário seguir o exemplo dAquele que não veio julgar o mundo, mas salvar (Jo 12:47). Que Ele nos ilumine.


Requiem


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